Apontamentos (atrasados) de uma semana cultural na Gulbenkian com Mattila, Met Opera e Kissin

O Plácido Zacarias deixou algumas críticas em atraso, mas pensa que o dano não é irreparável dado que os espectáculos em questão foram de representação única e podem ser agrupados como apontamentos de uma semana cultural.


I
Recital de Karita Mattila "O regresso da diva"
 Fundação Calouste Gulbenkian, 8 de Fevereiro de 2012 
Karita Mattila. (Fot. New York Times)
Estava previsto que este recital extraordinário iniciasse a corrente temporada de música clássica na FCG. Porém, motivos de saúde transferiram-no para a quarta-feira da semana passada, talvez permitindo a plena afluência do público. 
Bastará referir a veracidade do título do recital para que o leitor tenha uma noção da excelência do espectáculo, muito embora a subtileza de uma lieder interpretada por Mattila seja intraduzível por palavras. A récita foi dividida em duas partes: na primeira foram cantadas (sempre com Martin Katz ao piano) deliciosas obras de Berg e Brahms, e, na segunda parte, belíssimas canções de Debussy e Strauss.
Não obstante ser uma "diva" aos ouvidos, a soprano finlandesa mostrou, nos encores, uma personalidade carismática e divertida, desejando ao público que nessa noite sonhasse consigo. Certamente!!


II
Götterdämmerung | Met Live in HD
Fundação Calouste Gulbenkian, 11 de Fevereiro de 2012
O Anel dos Nibeluengos / Met Live in HD: O Ouro do Reno, A Valquíria, "Siegfried", O Crepúsculo dos Deuses,
Finalmente uma imitação de cavalo na cena final!! (Fot. Ken Howard/Metropolitan Opera)
Pouco mais de um ano depois da estreia de Robert Lepage como encenador na Metropolitan Opera, eis a conclusão de um monumental Anel do Nibelungo--um colossal conjunto de quatro óperas épicas de Richard Wagner, narradoras da história de um anel omnipotente que leva à destruição do mundo, no fim redimido pelo amor. 
 
Infelizmente, o genial autor da ópera não pôde viver até 2012 para ver o Anel encenado por Lepage. A plataforma rotativa que constitui o cenário foi explorada de forma notável, criando efeitos cénicos invulgares ou até inéditos. Existem também desvantagens; se a encenação é um prodígio da coligação entre as ideias tradicionais e a tecnologia moderna, o negativo do molde é a falta de flexibilidade da máquina e a inerente incapacidade de produção de cenas espectaculares out of the box para quem já viu a encenação das três óperas precedentes. A cena final da destruição e redenção do mundo pelas chamas não é entusiasmante. Resta ao espectador conformar-se com a subtileza dos deliciosos pormenores semeados por toda a ópera.

Para o Plácido Zacarias, está visto e ouvido que esta produção não é de grande interesse vocal. Voigt e Hunter Morris não são cantores brilhantes e, não tendo a primeira cordas vocais suficientemente fortes para Wagner, não se gera uma atmosfera de cooperação onde se consiga sentir o amor em si, ou o amor como a forma de redenção espiritual. Melhor estiveram os actores secundários, como a Waltraute de Meier, o Gunther, a Gutrune e o Hagen de König: fortíssimo, ideal sucessor de Salminen.
 

III
Evgeny Kissin (Piano) | Fundação Calouste Gulbenkian
12 de Fevereiro de 2012 

Evgeny Kissin é um dos mais conhecidos pianistas da actualidade. No passado domingo, subiu de novo ao palco da FCG. Que melhor maneira de conquistar um auditório há do que começar pela "Sonata ao luar" (op. 27, nº2) de Beethoven e terminar em nocturno (op. 32, nº2) e sonata (nº3, op. 58) de Chopin?
O pianista russo dedilha o teclado com mestria, e quem se tenha sentado à direita do auditório terá indagado se visão e audição correspondiam. Foi, sem dúvida, um recital brilhante -- quase integralmente uma exibição de virtuosismo musical. A sonata de Barber (op. 26) é uma obra moderna menos acessível, e a sua interpretação pareceu consistente mas não tão apelativa como o repertório standard que cercou esse número.

 Uma excelente semana musical, hem???


2 comentários:

  1. Caro Plácido,
    Foi uma semana de ouri na Gulbenkian, mas está a esquecer-se de outros dois espectáculos igualmente de elevada qualidade e oferecidos nessa mesma semana: Andreas Scholl e Ton Coopman!

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    1. Bach e contra-tenores não são minhas preferências... definitivamente! :-)

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