Sobre o Festival ao Largo 2016 (e a Nova Temporada em S. Carlos)

Mantendo a tradição seguida nos últimos anos, o Teatro Nacional de São Carlos anunciou a nova temporada em conjunto com o programa do Festival ao Largo, que se desenvolverá ao longo deste mês. Como o nome indica, o Festival ao Largo ocorre no Largo do Teatro de São Carlos e é uma espécie de outlet semi-musical auto-imposto, na medida em que a OPART – empresa pública consistentemente controversa – autoimpõe-se a realização de um festival num espaço inadequado e sem ter uma procura bem definida.
     A inadequação do espaço é tão óbvia que poucos reparam nela: não só no sentido logístico, mas também no conceptual. O festival provoca a sobrelotação do Largo, não oferecendo boas condições de conforto à maioria dos espectadores, que frequentemente se vêm empurrados para a rua contígua, cuja fama pelos problemas de esgotos é proporcional à fama do festival. Igualmente proporcionais à fama do festival são a fama do barulho e a insegurança provocados pelo eléctrico 28. A campainha do eléctrico é talvez o mais impertinente barulho possível durante a execução, por exemplo, do intermezzo da Cavelleria Rusticana; e a passagem do transporte ameaça directamente a segurança do público que assiste dessa rua.
     Pouco do que se passa neste festival tem de facto um elo com a finalidade histórica do Teatro – a ópera. De facto, dos 15 espectáculos produzidos, apenas 2 serão ópera e 3 serão bailados. Se a inadequação logística do espaço é ignorável por um simbolismo duvidoso, falta responder para que servem os 10 espectáculos que não envolvem o objectivo da organização (ópera em S. Carlos e bailado na Companhia Nacional de Bailado).
     Por outras palavras, dois terços do festival são dispendiosos e não prometem retorno do investimento, porquanto o público-alvo não é o mesmo da ópera nem do bailado. Os media não notam este resultado: boa parte do Festival ao Largo constitui uma despesa insustentável que nem sequer tem um público-alvo bem definido, repartindo-se entre transeuntes, amigos do jantar de sábado, hipsters, aborrecidos, madrugadores e, finalmente, uns quantos amigos com lugar marcado. Poucos desses coincidem com o verdadeiro público-alvo do Teatro cujo Largo simbolicamente acolhe este festival. 
     Felizmente, há sempre três selos que acompanham este festival e ficam muito bem para consumo popular pelos media: “GRÁTIS,” “8.ª EDIÇÃO” e “Joana Carneiro”. No meio da tradicional Embrulhada ao Largo, foi possível programar a nova temporada daquilo que realmente é o objecto histórico de S. Carlos: a ópera. Aí iremos no próximo post, mas não sem antes ponderar sobre este grande evento cuja tardia publicidade é neste momento o supra-sumo dos interesses do Teatro Nacional de São Carlos; não queiramos fazer-lhe sombra focando logo a nova temporada! (E ainda mais se antevemos uma significativa produção wagneriana para os lados de Belém!...)

Dia Mundial de Richard Wagner

Para muitos, este dia é conhecido como sexta-feira santa. Para o P.Z., hoje é o dia internacional de Richard Wagner. https://youtu.be/pD9

Waltraud Meier na Gulbenkian: Träume, Träume... (crítica)



“Começou a carreira em 1976… já não é nada nova!”, diziam uns espectadores que estavam sentados ao lado do P.Z. hoje à noite. E realmente este cliché era uma preocupação inevitável. Aliás, ao escrever sobre Waltraud Meier há dias, o P.Z. hesitou entre escrever “uma das principais intérpretes wagnerianas actuais” ou “uma das principais intérpretes wagnerianas dos anos 90”. Em todo o caso, independentemente de estar em fim de carreira, Meier apresentou uma interpretação profunda e sofisticada das Wesendonck lieder de Wagner. A atenção que a meio-soprano atribui às nuances do texto é notável, atribuindo destaque a estas curtas peças que representam a vertente mais emocional da obra wagneriana. Sem prejuízo, claro, das reflexões mais profundas subjacentes a Stehe still! e Schmerzen, que ainda assim não têm a dimensão filosófica e dramática que pauta os grandes trabalhos de Wagner. As Wesendonck lieder são, por isso, um curto consolo e  um raro prazer para wagnerianos

É inevitável comparar o estilo de abordagem a lieder de Meier ao da grande Elisabeth Schwarzkopf, embora seja clara a distinção dos timbres, onde o tom mais escuro que caracteriza esta fase da carreira de Meier constitui vantagem para o ambiente melancólico de Im Treibhaus e aprofunda a vertente quase hipnótica e sonhadora de Der Engel e Träume. Naturalmente para encher chouriço e atrair os habitués de assinatura para um programa mais composto, o programa começou com o prelúdio do Lohengrin de Wagner e finalizou com a terceira sinfonia de Bruckner (trabalho dedicado a Wagner). Honestamente, o P.Z. só estava interessado nas Wesendonck lieder e foi-se embora no intervalo: já valeu bem a pena e amanhã lá estará novamente. Que pena o programa ser tão curto!

★★★★