Debate aberto: o Vestuário na Ópera e em Concertos

Edit: se estiver à procura de conselhos e não do debate, 
desça para a segunda parte deste texto.

Já foi no ano passado que anunciei um debate. O tema é o vestuário para a ópera e para concertos de música clássica. Achei este tema curioso porque tenho aqui algum material interessante e vem na sequência de uma discussão que aqui se teve por acaso acerca de outro comportamento nestes eventos: a ovação.

Ante-estreia da Valquíria para menores de 30 anos no Scala em 2010.
A Rainha Elizabeth II em S. Carlos.
Tanto quanto sei, pelos anos 50, em S. Carlos, era muito frequente o uso de traje nocturno. Nos anos 80, já se ia de jeans para Covent Garden, ao mesmo tempo que se proibia a entrada de ténis em S. Carlos. (Claro que esta última regra foi abolida...)

Recentes políticas causaram controvérsias, como a célebre nota nos bilhetes para o Scala de Milão.
“Patrons are advised to wear black tie for premiere performances and it is recommended that men wear a jacket and tie for all other performances. In general, we ask that you wear clothing that is in keeping with the decorum of the opera house.
Outros mais liberais como S. Carlos ou a Metropolitan Opera de NY têm um standard de
Não existe um código de vestuário. Habitualmente o público veste-se de uma forma mais formal para as galas ou noites de estreia, mas é opcional. Recomenda-se vestuário confortável.

La Scala Under 30: O Lago dos Cisnes. Dez. 2010.
S. Carlos nos anos 40.
Scala under 30: Lago dos Cisnes.
A minha opinião inclina-se mais para o tal "decoro do teatro". A ópera é uma das artes do espectáculo; como tal, a sua função passa por impressionar o espectador. Quando olho para estas fotografias antigas, ocorre-me "que espectáculo!". Fiquei impressionado com os vestidos das senhoras e o ambiente de elegância que este vestuário proporciona. Não me vou esquecer tão cedo destas fotografias. Do mesmo modo, ao vivo, dir-se-ia "não me vou esquecer desta noite". Apoio, portanto, a ópera como evento mais formal, em que deve haver uma ou duas galas temáticas a sério (não de jeans) por temporada.

O público do S. Carlos recebendo a Rainha Elizabeth II.
Como é óbvio, considero excepções. Nestas fotografias do Scala, não se vê calças no fundo do rabo, ao contrário do que já apanhei em São Carlos. A questão é que, naturalmente, ninguém tem paciência para se vestir bem para ver um espectáculo da treta. Com tão pouca afluência de público, quem pode censurar o teatro por oferecer bilhetes para plateia aos jovens estudantes de artes, provavelmente futuros trabalhadores da instituição? Bem se sabe que os artistas gostam de quebrar as tradições...

Na Gulbenkian, já depende. Em dias de semana, é mais formal, mas vê-se muitos estudantes de conservatório de calções e t-shirt. O Met Live é uma espécie de cinema, pelo que  jeans e outras informalidades são perfeitamente compreensíveis.

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Edit: 31/05/2012
E eu, que nunca fui, o que devo vestir?
 
Porque este post tem sido continuamente lido por um grande número de computadores, presume-se que alguns dos leitores principiantes estejam à procura de conselhos e não de debates. Seguem-se algumas ideias quanto às duas principais salas de Lisboa. Em S. Carlos e na Gulbenkian, existem espectadores formalmente vestidos (mas nunca em traje de gala) e alguns mais descontraídos. Na Gulbenkian, predominam os descontraídos, dos quais apenas uma minoria usa jeans. Quanto mais baratos os concertos, mais informal se encontra o público.

Para a ópera no Teatro de S. Carlos (Chiado), os lugares da plateia são ocupados de forma praticamente equitativa por tradicionalistas e por descontraídos. Nos camarotes dos dois primeiros andares, predomina o vestuário formal, enquanto os lugares dos camarotes e do balcão superiores são locais de maior descontracção. As senhoras e as jovens gostam mais de se por bonitas como se fossem a uma festa especial. Nos espectáculos nocturnos (principalmente nas estreias), o vestuário tende a ser mais vistoso.

Embora ninguém seja proibido de entrar por usar ténis ou jeans, é possível que o espectador seja olhado de lado por alguns conservadores se usar esse género de vestuário. É importante que o espectador se sinta bem; porém, convém notar que t-shirts e, ainda mais, calções ou chinelos, não são boas ideias e podem ser vistos como ofensivos ao "decoro do teatro". Para um principiante, ir à ópera é algo que fica na memória; um vestido simples e um fato serão sempre recordações elegantes. E porque não ser elegante, ao mesmo tempo que se demonstra algum respeito pelo decoro desta arte? Se não tivesse mesmo a tentação de seguir a tradição, estaria o leitor a ler este texto? Claro que não... Conte-nos a sua experiência nos comentários!

17 comentários:

  1. Se quer a minha opinião, ela aqui vai:
    Acho que as pessoas se devem vestir de forma decente e como se sentirem confortáveis. Nas tais galas especiais, como acontecimentos de excepção que deverão ser, aceito uma forma mais formal no vestir.
    Para os espectáculos correntes, não me choca que se vá "à vontade", mas decente.
    O que nos deve impressionar, na minha opinião, é o espectáculo oferecido e não a forma como o público vai vestido.
    Na generalidade dos teatros de ópera onde tenho estado (fora das galas) vê-se de tudo mas é habitual ver várias pessoas, jovens e menos jovens, vestidas de forma mais casual.
    O único sítio onde me obrigaram a por uma gravata foi mesmo no Scala (e tive que comprar uma na hora, pois estava muito longe do hotel!!).

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    1. O que é decoroso do meu meio pode não o ser no seu. O que não é decente para si, poderá ser para mim.
      Assim nasce a formalidade.

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    2. Sinceramente acho uma patetada que se tenha de respeitar qualquer tipo de dress Code. Penso que as pessoas vão no intuito de ver um maravilhoso espetáculo, em que as estrelas estão no palco, não a desfilar roupa. Parece-me algo bastante fútil na verdade e démodé, associando este tipo de espetáculo a uma determinada classe ou posição confortável.

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  2. Caro FanaticoUm.
    É, de facto, essencial que se vá de forma confortável. Eu daí excluo apenas os jeans (embirração minha) e pólos com fantasia. Penso que gravata é dispensável; mas quem a use no dia-a-dia não tem de se preocupar em tirar.
    Sou apologista do casaco blazer. (Ténis nem morto!)
    Há tempos fui a uma gala no S. Carlos e nem uma pessoa com laço se viu. Nós somos o país das galas de jeans!
    Mas como é que foi isso da gravata - não o deixaram mesmo entrar?

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  3. Habitualmente ando vestido de forma decente (pelo menos para o meu conceito de decência e para a minha idade) mas, muitas vezes, sem gravata.
    Nesse dia estava em Milão por razões profissionais (e vestido de forma informal, sem gravata) e havia no Scala uma récita (há muito esgotada) de La Sonnambula. Estava próximo do Scala e, durante o dia, fui lá 3 ou 4 vezes, nos intervalos, mas ... nada. Na última tentativa, a 1 hora antes do início do espectáculo, o homem da bilheteira lá me vendeu um bilhete que deveria estar guardado para alguém que terá desistido (?). O lugar era excelente, na plateia. Estava muito longe do hotel e, logo que abriram as portas ao público, tentei entrar. Disseram-me logo que não podia entrar sem gravata (blazer e camisa tinha). Ainda me fiz de estrangeiro desentendido que não
    fala italiano nem inglês (!), mas não tive sorte. A mímica esclareceu a situação, com o toque sempre muito sui generis dos italianos. E não tive outra alternativa a ir comprar uma gravata (ali mesmo perto, nas galerias Vitor Emanuel e mesmo na rua, há muitas à venda, algumas baratas e ordinarotas).
    E então lá entrei, para assistir a uma das melhores récitas de que tenho memória! Dei por muito bem empregue o dinheiro que gastei na gravata, embora ache que nunca mais a usei, pois era realmente muito feia!

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  4. Pois essa pergunta irá dar direito a um "post" no nosso blog. Mas conto-lhe em primeira mão.
    Estavam em cartaz Natalie Dessay (Amina) e Raul Giménez (Elvino) entre os outros cantores dos papeis secundários. No início foi comunicado que o tenor estava doente e o papel de Elvino seria cantado pelo tenor substituto (que estes teatros sempre têm). Este era um jóvem de nome... Juan Diego Flórez!!
    E foi assim que ouvi uma das vozes de tenori di grazzia que ainda hoje mais admiro! Mas contarei esta história mais pormenorizadamente no blog, lá mais para a frente.

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  5. Ficamos a aguardar, caro FanaticoUm.
    E tendo a concordar consigo quanto às (não-)regras do trajar.

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  6. Essa história de ir comprar uma gravata na rua, em Milão, é deliciosa...
    Creio que deveria sempre haver 1 ou duas récitas de gala nas temporadas. Este ano, em visita guiada à Ópera de Viena, vi bem a a alegria que os austríacos mostram com as récitas de gala e a importancia que lhes dão..
    «Galas de jeans» parecem-me desadequadas, mas, neste nosso país, onde tudo é possível, não sei o que lhes diga...

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  7. Há dois anos assisti à estreia da nova produção de "Crepúsculo dos Deuses" em Viena (fraquinha, por sinal) e havia de tudo. A récita estava esgotada havia muito tempo e só consegui um bilhete em cima da hora, lá para cima.
    E é lá em cima que se encontram grandes apreciadores de ópera, que têm lugar cativo e marcado com objectos vários: lenços, cachecóis, papéis, etc. Aí havia pouca gente vestida "de rigueur". Por outro lado, nos intervalos, as senhoras recolhiam os visons para irem num instantinho à rua comer uma salsicha e beber uma cerveja à roulotte.

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  8. Hi Placido Zacharias,

    For the first time on your blog and I have to say, it's wonderful! I guess you've got a nice camera.

    Your (nick)name always reminds me of "Christian Zacharias" who is very famous German pianist.

    Concerning "how to dress at the opera", I'm quite old-fashined. Every time I go to the opera, I try to dress myself as decently as I can. I do that not for the others, but just for me. I feel good, if I look good(in my eyes). However, I don't like uncomfortable outfit at the opera. It can ruin the evening.

    For men, you guys don't have to wear ties. Blazers and y-shirts, enough. For young men, why not jeans?

    In Germany no one cares what they wear at the opera. However, most of people in certain ages dress properly. Young men prefer casual looks.

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  9. Wien is a little bit conservativ. There's a so called dress-code there which we don't have in Germany. Wearing Sneakers are not allowed to get in. Jeans? Probably better not. Wieners are a little bit snobbish. We say, there's Wiener and Austrian in Austria. Ha, ha..

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  10. Uma regra de ouro que aprendi em pequeno é a de "saber estar nos sítios".
    Pois bem, se existem códigos, estes são para respeitar. Se quisesse ouvir musica clássica de jeans, comprava um CD e ficava em casa a ouvir, em vez de ir armado em galito da India numa de pseudo-negligé!
    A meu ver, o mínimo aceitável é casaco e gravata, onde a gravata nem folga e não se tira o casaco, pois o casaco nunca se tira! (Só quando se chega a casa!)

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    1. Vou à ópera para me deleitar não para passar horrores. Ouvir o Anel em S. Carlos com temperaturas tropicais sem tirar o casaco pode ficar bonito na etiqueta e para o museu de cera, mas não me serve e não me armo em pseudo, coisa nenhuma. O meu único código (sou um homem livre) é o de Oscar Wilde: "desde que não espante os cavalos...". Nos anos 80 vi em S. Carlos casacas (aba de grilo) com sapatilhas. Ficavam muito bem. Porque raio não haviam de ficar? Se as senhoras podem ir de chinela...

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    2. Absolutamente!

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  11. A propósito de códigos de vestuário, lembro-me de uma vez, há muito tempo, no século passado, ter frequentado o salão de jantar de um hotel num pequeno reino africano. O código do salão era, para os homens, casaco e gravata ou o traje tradicional, isto é: descalço, uma pequena pele de leopardo tapando as partes e um penacho no cabelo. O chefe de vinhos, aliás, era como se apresentava. Um espectáculo.

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  12. Há lugares para tudo Nao se vai à praia de fato nem à missa de bikini However parece que aceitar codigos é ser reaccionário God forbidies!

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