Debate: o Vestuário na Ópera e em Concertos


Ópera em S. Carlos, Março 2017. Fotografia de David Rodrigues.

Houve uma altura em que os lugares caros da ópera eram lugares de formalidade, como se vê nos filmes. Nos anos 70, segundo me contam, era proibido entrar em S. Carlos sem traje de gala; contudo, desde os anos 80, é possível ir de jeans à ópera. Actualmente, apenas uma minoria dos teatros do mundo exige formalidade. A maioria, como S. Carlos, a Metropolitan Opera ou até festivais de ópera na Alemanha, anunciam: “Não existe um código de vestuário. Habitualmente o público veste-se de uma forma mais formal para as galas ou noites de estreia, mas é opcional. Recomenda-se vestuário confortável.” 
      Na minha experiência, vi muito mais pessoas a serem proibidas de entrar em hotéis, restaurantes e discotecas pelo que tinham vestido do que na ópera. Isto quer dizer que existe uma tradição não escrita e suficientemente respeitada que, pelo menos em Portugal, é facultativa. (Não faz sentido dizer que S. Carlos é um espaço para a elite social.) A fotografia acima ilustra bem que não estamos a falar de uma tradição de grande formalidade nem de fashion statements. Em S. Carlos e na Gulbenkian, existem espectadores formalmente vestidos e alguns mais descontraídos. Na Gulbenkian, predominam os descontraídos, dos quais apenas uma minoria usaria jeans. Há vários termos que podem descrever o ambiente, que varia entre business, business casual ou summer business casual.
      Para a ópera no Teatro de S. Carlos (Chiado), os lugares da plateia são quase igualmente por formalidade e casualidade. Nos camarotes dos dois primeiros andares, predomina o vestuário formal, enquanto os lugares dos camarotes e do balcão superiores são locais de maior casualidade.  Nos espectáculos nocturnos (principalmente nas estreias), o vestuário tende a ser mais formal. Embora ninguém seja proibido de entrar por usar ténis ou jeans, quem o fizer sentir-se-á inevitavelmente diferente--com as implicações habituais da palavra, boas ou más. É importante que o espectador se sinta bem; porém, convém notar que t-shirts e, ainda mais, calções ou chinelos, não são boas ideias e podem ser vistos como ofensivos ao “decoro do teatro”. Esta noção de “decoro do teatro” é uma tradição histórica e não uma invenção para segregar as classes: não é à toa que alguns dos melhores teatros de ópera no mundo sugerem aos espectadores que tragam “vestuário confortável,” mas depois têm um público muitíssimo respeitador da cerimónia da formalidade.
      O meu conselho é genérico: respeitem as tradições da sociedade e respeitem-se a vocês mesmos. Contem a vossa experiência nos comentários!

Nota: este texto foi actualizado pela última vez em Setembro de 2017.

17 comentários:

  1. Se quer a minha opinião, ela aqui vai:
    Acho que as pessoas se devem vestir de forma decente e como se sentirem confortáveis. Nas tais galas especiais, como acontecimentos de excepção que deverão ser, aceito uma forma mais formal no vestir.
    Para os espectáculos correntes, não me choca que se vá "à vontade", mas decente.
    O que nos deve impressionar, na minha opinião, é o espectáculo oferecido e não a forma como o público vai vestido.
    Na generalidade dos teatros de ópera onde tenho estado (fora das galas) vê-se de tudo mas é habitual ver várias pessoas, jovens e menos jovens, vestidas de forma mais casual.
    O único sítio onde me obrigaram a por uma gravata foi mesmo no Scala (e tive que comprar uma na hora, pois estava muito longe do hotel!!).

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    1. O que é decoroso do meu meio pode não o ser no seu. O que não é decente para si, poderá ser para mim.
      Assim nasce a formalidade.

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    2. Sinceramente acho uma patetada que se tenha de respeitar qualquer tipo de dress Code. Penso que as pessoas vão no intuito de ver um maravilhoso espetáculo, em que as estrelas estão no palco, não a desfilar roupa. Parece-me algo bastante fútil na verdade e démodé, associando este tipo de espetáculo a uma determinada classe ou posição confortável.

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  2. Caro FanaticoUm.
    É, de facto, essencial que se vá de forma confortável. Eu daí excluo apenas os jeans (embirração minha) e pólos com fantasia. Penso que gravata é dispensável; mas quem a use no dia-a-dia não tem de se preocupar em tirar.
    Sou apologista do casaco blazer. (Ténis nem morto!)
    Há tempos fui a uma gala no S. Carlos e nem uma pessoa com laço se viu. Nós somos o país das galas de jeans!
    Mas como é que foi isso da gravata - não o deixaram mesmo entrar?

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  3. Habitualmente ando vestido de forma decente (pelo menos para o meu conceito de decência e para a minha idade) mas, muitas vezes, sem gravata.
    Nesse dia estava em Milão por razões profissionais (e vestido de forma informal, sem gravata) e havia no Scala uma récita (há muito esgotada) de La Sonnambula. Estava próximo do Scala e, durante o dia, fui lá 3 ou 4 vezes, nos intervalos, mas ... nada. Na última tentativa, a 1 hora antes do início do espectáculo, o homem da bilheteira lá me vendeu um bilhete que deveria estar guardado para alguém que terá desistido (?). O lugar era excelente, na plateia. Estava muito longe do hotel e, logo que abriram as portas ao público, tentei entrar. Disseram-me logo que não podia entrar sem gravata (blazer e camisa tinha). Ainda me fiz de estrangeiro desentendido que não
    fala italiano nem inglês (!), mas não tive sorte. A mímica esclareceu a situação, com o toque sempre muito sui generis dos italianos. E não tive outra alternativa a ir comprar uma gravata (ali mesmo perto, nas galerias Vitor Emanuel e mesmo na rua, há muitas à venda, algumas baratas e ordinarotas).
    E então lá entrei, para assistir a uma das melhores récitas de que tenho memória! Dei por muito bem empregue o dinheiro que gastei na gravata, embora ache que nunca mais a usei, pois era realmente muito feia!

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  4. Pois essa pergunta irá dar direito a um "post" no nosso blog. Mas conto-lhe em primeira mão.
    Estavam em cartaz Natalie Dessay (Amina) e Raul Giménez (Elvino) entre os outros cantores dos papeis secundários. No início foi comunicado que o tenor estava doente e o papel de Elvino seria cantado pelo tenor substituto (que estes teatros sempre têm). Este era um jóvem de nome... Juan Diego Flórez!!
    E foi assim que ouvi uma das vozes de tenori di grazzia que ainda hoje mais admiro! Mas contarei esta história mais pormenorizadamente no blog, lá mais para a frente.

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  5. Ficamos a aguardar, caro FanaticoUm.
    E tendo a concordar consigo quanto às (não-)regras do trajar.

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  6. Essa história de ir comprar uma gravata na rua, em Milão, é deliciosa...
    Creio que deveria sempre haver 1 ou duas récitas de gala nas temporadas. Este ano, em visita guiada à Ópera de Viena, vi bem a a alegria que os austríacos mostram com as récitas de gala e a importancia que lhes dão..
    «Galas de jeans» parecem-me desadequadas, mas, neste nosso país, onde tudo é possível, não sei o que lhes diga...

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  7. Há dois anos assisti à estreia da nova produção de "Crepúsculo dos Deuses" em Viena (fraquinha, por sinal) e havia de tudo. A récita estava esgotada havia muito tempo e só consegui um bilhete em cima da hora, lá para cima.
    E é lá em cima que se encontram grandes apreciadores de ópera, que têm lugar cativo e marcado com objectos vários: lenços, cachecóis, papéis, etc. Aí havia pouca gente vestida "de rigueur". Por outro lado, nos intervalos, as senhoras recolhiam os visons para irem num instantinho à rua comer uma salsicha e beber uma cerveja à roulotte.

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  8. Hi Placido Zacharias,

    For the first time on your blog and I have to say, it's wonderful! I guess you've got a nice camera.

    Your (nick)name always reminds me of "Christian Zacharias" who is very famous German pianist.

    Concerning "how to dress at the opera", I'm quite old-fashined. Every time I go to the opera, I try to dress myself as decently as I can. I do that not for the others, but just for me. I feel good, if I look good(in my eyes). However, I don't like uncomfortable outfit at the opera. It can ruin the evening.

    For men, you guys don't have to wear ties. Blazers and y-shirts, enough. For young men, why not jeans?

    In Germany no one cares what they wear at the opera. However, most of people in certain ages dress properly. Young men prefer casual looks.

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  9. Wien is a little bit conservativ. There's a so called dress-code there which we don't have in Germany. Wearing Sneakers are not allowed to get in. Jeans? Probably better not. Wieners are a little bit snobbish. We say, there's Wiener and Austrian in Austria. Ha, ha..

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  10. Uma regra de ouro que aprendi em pequeno é a de "saber estar nos sítios".
    Pois bem, se existem códigos, estes são para respeitar. Se quisesse ouvir musica clássica de jeans, comprava um CD e ficava em casa a ouvir, em vez de ir armado em galito da India numa de pseudo-negligé!
    A meu ver, o mínimo aceitável é casaco e gravata, onde a gravata nem folga e não se tira o casaco, pois o casaco nunca se tira! (Só quando se chega a casa!)

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    1. Vou à ópera para me deleitar não para passar horrores. Ouvir o Anel em S. Carlos com temperaturas tropicais sem tirar o casaco pode ficar bonito na etiqueta e para o museu de cera, mas não me serve e não me armo em pseudo, coisa nenhuma. O meu único código (sou um homem livre) é o de Oscar Wilde: "desde que não espante os cavalos...". Nos anos 80 vi em S. Carlos casacas (aba de grilo) com sapatilhas. Ficavam muito bem. Porque raio não haviam de ficar? Se as senhoras podem ir de chinela...

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    2. Absolutamente!

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  11. A propósito de códigos de vestuário, lembro-me de uma vez, há muito tempo, no século passado, ter frequentado o salão de jantar de um hotel num pequeno reino africano. O código do salão era, para os homens, casaco e gravata ou o traje tradicional, isto é: descalço, uma pequena pele de leopardo tapando as partes e um penacho no cabelo. O chefe de vinhos, aliás, era como se apresentava. Um espectáculo.

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  12. Há lugares para tudo Nao se vai à praia de fato nem à missa de bikini However parece que aceitar codigos é ser reaccionário God forbidies!

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