Pagliacci e Der Zwerg em São Carlos (crítica)

Num improvável duplo programa, as forças de S. Carlos juntam na mesma noite Pagliacci, de Leoncavallo, e Der Zwerg, de Zemlinsky. O resultado inesperado é uma noite completa e inconvencional num sentido, porém bem convencional (e talvez até pouco inspirada) no outro sentido. Tradicionalmente, representa-se Pagliacci a par de Cavalleria Rusticana em virtude da proximidade estilística das duas óperas do “verismo”. A inconvencionalidade da corrente produção reside no elo entre as duas óperas seleccionadas: duas maneiras de o ser humano encarar as suas características físicas. Nos Palhaços, o corcunda Tonio procura a intriga, culminando no “fim da comédia” por um duplo homicídio seguido, por opção da encenadora Rodula Gaitanou, de suicídio. Em Der Zwerg, o anão prefere negar a sua aparência disforme, o que o consume e destrói. Se a destruição é física ou não, a encenadora Nicola Raab deixa o espectador decidir. A abordagem cénica em ambas as óperas foi, porém, essencialmente convencional com retoques estéticos. 
      A dimensão estética de José Capela é um denominador comum às duas óperas e será fielmente comparável a uma versão low-cost da estética frequentemente apresentada por Robert Carson. A imitação não é necessariamente má; e o resultado pareceu-me, de facto, bastante satisfatório. Embora não ofereça o elemento-surpresa aos espectadores mais atentos, o efeito nos Palhaços é interessante, distanciando com sobriedade a falsa peça do acto II como um espectáculo dentro de um espectáculo. Este distanciamento remete para o princípio que motiva o drama desde o prólogo: os artistas, que vemos em S. Carlos, são “humanos de carne e osso”. Quando, em Pagliacci, a parte traseira do “palco” roda e revela uma réplica do palco de S. Carlos, pareceu ter-se gerado alguma surpresa; pareceu-me uma inevitabilidade desde que o pano subiu. A elegante iluminação de Rui Monteiro, em tons escuros e neutros, ajuda à construção do ambiente perseguido pelas encenadoras: sem dúvida uma das revelações da noite. O regresso do infame maestro Martin André foi inesperadamente positivo. Sob a sua batuta, a orquestra sinfónica portuguesa tocou com inspiração e cor, igualmente notável nos Palhaços e em Der Zwerg. O prelúdio dos Palhaços soou inicialmente desapaixonado, contudo a orquestra foi ganhando consistência e atingiu um nível de excelência. André não foi barulhento como assistimos no passado, continuando porém a sua tendência para impor a orquestra sobre os cantores. 
      Em Pagliacci, compreende-se essa tendência com base na natureza vocal dos cantores. Desde o prólogo, o Tonio de Igor Gnidii não exibe uma presença particularmente notável. A sua interpretação é personalizada e tem mérito, sem de destacar significativamente. A entrada do Canio de Peter Auty é desilusória, com uma voz já bem avançada na carreira e uma projecção insatisfatória, ficando frequentemente submerso pela orquestra. O seu “Vesti la giubba” foi profundo, porém abafado pelo tom fortemente dramático orquestra; situação semelhante ocorreu no acto II (“No, pagliaccio non son!”). A Nedda de Norah Amsellem apresentou mais facilidade em audibilidade, contudo padece da condição de estridência frequente, o que causou incómodo moderado durante a récita. Gaitanou aproveita o físico de Amsellem para gerar momentos de sensualidade em torno do dueto de amor com Silvio. Embora estes momentos sejam naturalmente conspícuos, não são inexcedivelmente inconvencionais. Depois de discussão com outros membros da audiência, parece que estes momentos criaram uma percepção de que os cantores em eram bons actores. Respeitosamente, discordo; na verdade, pareceu-me até que estavam pouco à vontade com a encenação. Thomas Lehman, como Silvio, pareceu-me o mais envolvido e vocalmente mais adequado ao papel. Nenhum dos cantores foi insatisfatório mas, à excepção do último, também nenhum pareceu estar ao nível da encenação. 
      Der Zwerg foi, porventura, a parte mais interessante e envolvente do programa duplo. A interpretação da rara obra de Zemlinksy pareceu globalmente mais original, menos previsível e, em última análise, mais bem interpretada do que o clássico de Leoncavallo. A orquestração flexível e estilizada de Zemlinksy explora, através de uma fundação tonal colorida, a história original de Oscar Wilde. O drama reúne o que há de melhor no suspense de uma Salome e nas construções filosóficas sobre o homem e a sua imagem de um Retrato de Dorian Gray. A cena da chegada do anão é lenta, construindo um momento de raro de expectativa entre as óperas mais representadas. O anão aparece com vestes exóticas. Por onde andou ele? Será mesmo louco? Nicola Raab gere cuidadosamente o movimento em palco. Sabemos que estamos em frente à princesa, porém só a vemos decorrido algum tempo; esperamos, em expectativa, que o anão se mova. As personagens vão sendo cuidadosamente caracterizadas ao longo da acção. Sarah-Jane Brandon desempenhou o papel da infanta Clara. O seu timbre continua (desde a Micaëla na Carmen) a não deslumbrar, embora revele empenho cénico e razoável agilidade vocal. O libreto e a música deixam algum espaço para leitura sobre a personagem; Brandon apresenta uma princesa cruel e cínica, porém com algumas hesitações no dueto com o anão.  Peter Bronder desempenhou o difícil papel do anão protagonista com dignidade. Bronder oferece uma interpretação detalhada e inteligente desta peculiar personagem. Bem ciente das suas limitações vocais, o tenor trabalha com a música dentro das suas possibilidades. Será o anão mesmo um anão? Raab aponta para o anão num sentido figurativo: uma personagem voluntariamente rebaixada que se levanta ao falar com a princesa. Dora Rodrigues simboliza, através de Ghita, os verdadeiros amigos na sociedade: aqueles que dizem a verdade. O retrato foi profundo e emocional. Assistir ao desenvolvimento artístico de Dora Rodrigues está a ser interessante. A primeira impressão foi má mas foi claramente ultrapassada. 
      Der Zwerg é uma ópera pequena, intensa e--não fosse a mão do mestre Wilde--atrai discussões animadas. Também não me pareceu ser um espectáculo inacessível (a música é claramente mais simples do que a de uma Salome), pelo que a razão por que Der Zwerg não faz parte do repertório habitual não me é conhecida. Talvez a ópera seja demasiado curta para construir uma noite satisfatoriamente recheada por si só? Em todo o caso, a justaposição com Pagliacci contextualiza a ópera de Zemlinsky e dá-lhe todo o relevo necessário para ser apreciada. A dupla de Palhaços e Der Zwerg ensina a importância da auto-aceitação. Se tradicionalmente Palhaços ensina a importância de reconhecer o artista como humano de carne e osso, esta é uma oportunidade de louvar vários artistas pelo seu surpreendente desempenho nesta produção. Por outro lado, é também uma ocasião conveniente para recordar outros artistas (e não só) de que verem-se ao espelho é fundamental: é preciso reconhecer que o que lá vêm é a realidade e não um impostor que os segue, mas sem por isso se tornarem num Tonio. 

Pagliacci    ★★★☆☆
Der Zwerg ★★★★☆

A seguir: Uma noite no CCB (crónica), Plácido Domingo na Meo Arena: crónica de alguns preconceitos.
Leia também: Tristão e Isolda no CCB (crítica), "Como é possível gostar de uma ópera em língua estrangeira?" (crónica).

Um comentário:

  1. Excelente crítica Plácido! Concordo globalmente consigo, mas vou ser muito mais parco nos comentários.

    ResponderExcluir