Tannhäuser | Fundação Calouste Gulbenkian

Para uma ópera em versão de concerto--sem qualquer encenação ou utilização de adereços--, o espectador não espera menos do que um elenco que, por si só, seja capaz de sustentar uma jornada lírica, empregando somente recursos vocais e orquestrais. No Capriccio de Strauss, La Roche defende a cenografia como elemento indispensável ao espectáculo, mas acaba por concordar com o compositor Flamand e o poeta Olivier a respeito de que a ópera é a reunião da música, da literatura e da cenografia; pois em Wagner, encenação é fundamental para o principiante, pelo que advirto que este espectáculo (a repetir-se no domingo, dia 15) pode não ser da compreensão ou do agrado de principiantes na ópera.


Os apreciadores de Wagner, por seu lado, também não se sentiram por demais estimulados pela "encenação imaginária" proporcionada pelos leitmotiven, visto que a Orquestra da Gulbenkian não esteve em boa forma, tendo havido inúmeros desencontros entre os instrumentos. Neste blog, em casos de insuficiência orquestral, culpa-se o maestro (Bertrand de Billy); esta vez será excepção porque a cooperação--tão necessária na ópera de Wagner--entre a orquestra e os cantores foi nítida e porque vários momentos musicais foram entusiasmantes e explorados de forma original.

Tannhäuser deixa Vénus, e regressa à terra que, oprimido, deixara há largo tempo. É-lhe dado a saber, pelo senhorio dessa terra e seus acompanhantes, que desde que partiu, Elisabeth esperou por si. Entusiasmado pela possibilidade de se redimir através do amor de Elisabeth, Tannhäuser entra num concurso de canto cujo prémio seria o casamento com a sua amada; mas a excelência e a pureza dos versos cantados pelos seus oponentes exalta-o de tal modo, que acaba cantando um hino a Vénus e ao amor carnal. O pecador é expulso e parte em peregrinação para Roma em busca do perdão papal. Sendo-lhe este negado, Tannhäuser regressa e tenta reencontrar Vénus. É então que se compreende que Elisabeth, num acto espiritual, intercedeu por ele no Céu. Afinal, "Deus concedeu a graça ao peregrino / que entra agora na felicidade dos céus".

Joan Botha--tenor amiúde apresentado em Bayreuth e nas mais prestigiadas salas de ópera do mundo--interpretou Tannhäuser, a lendária personagem medieval. Fazendo-se valer dos seus excelentes recursos vocais de heldentenor, Botha conseguiu retratar extraordinariamente as diferentes facetas do trovador medieval; quer ao entoar fervorosamente o hino a Vénus, quer ao se aperceber, mais tarde, da desgraça que pairava sobre a sua alma, ou ao narrar amargamente a sua história e o desfecho que erradamente julgava ter. Várias vezes lhe falhou a voz sólida, mas penso que o crítico pode perdoar este peregrino que tão bem contribuiu para o (seu) espectáculo.

Na ópera, Manuela Uhl interpretou uma deusa do amor sedutora, de voz cheia e sensual, tendo-se justificado inteiramente a segunda procura por parte de Tannhäuser. Se eu tivesse sido o trovador, talvez me tivesse inclinado mais para Vénus, porque Melanie Diener não foi não foi particularmente comovente como Elisabeth. Este género de personagem quer-se mobilizador de auditório, e para isso são requeridas várias qualidades na intérprete que vão além da beleza tímbrica, ou da naturalidade do canto: a esta Elisabeth, faltou carisma.

Um dos momentos mais belos da ópera é, sem dúvida, o monólogo de Wolfram (um dos trovadores) no acto III. Job Arantes Tomé foi quem interpretou Wolfram, e quem menos se destacou na récita devido à sua voz pouco potente. Falk Strukmann, sim, deveria ter sido Wolfram--e não o senhorio Hermann. Provavelmente, a intenção dessa escolha no elenco deveu-se ao pensamento de que um senhorio se deve impor mais do que um trovador. Por outro lado, o senhorio é uma personagem que não tem nenhum momento vocal emblemático, e não é necessário recorrer-se a um cantor de voz tão encorpada (suficiente para um Wotan), deixando-se um dos mais belos momentos da ópera "pendurado".

Felizmente, a ópera acabou em grande com o famoso coro dos peregrinos cantado ao mais alto nível.

O Tannhäuser apresentado pela FCG é uma produção muito interessante do ponto de vista vocal, contando com nomes reconhecidos internacionalmente. O facto de não haver encenação restringe o público interessado, mas, para wagnerianos ou melómanos, este é um espectáculo de assistência obrigatória, absolutamente a não perder!

que nota daria o(a) leitor(a)?
  
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Um comentário:

  1. Um excelente concerto e Botha é o melhor Tannhäuser da actualidade.

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