Dialogues des Carmélites no Teatro Nacional de São Carlos (crónica)
(Foto)
Onze meses, cinco óperas e duas peregrinações operáticas depois, seria desta que o P.Z. voltaria a S. Carlos! Dialogues des Carmélites, de Poulenc, parecia um título suficientemente atractivo. Trata-se de uma ópera raramente vista, extremamente difícil de interpretar e de apreciar. Porém, defensores de ópera mais moderna encontram nela grande valor. O P.Z. tem uma atitude exploratória em relação a este género de música porque teve duas experiências recentes que lhe mostraram o poder deste tipo de ópera: O Jogador, de Prokofiev, e Pelléas et Mélisande, de Debussy. São obras intimamente ligadas à expressão desinibida do sentimento humano, sendo o drama fortemente subsidiário da miséria e da aflição das personagens. Além das singularidades estilísticas da música, a preferência por este tipo de abordagem artística à vida é altamente discutível.
Para muitos daqueles que já ouviram e já esqueceram as traviatas e os rigoletos, Diálogos das Carmelitas pode parecer uma atracção exótica e sugestiva. Inesperadamente, há já pouquíssimos bilhetes à venda. Haverá assim tantos apreciadores de ópera em Portugal? E tantos desses dispostos a arriscar ficar a penar mais de três horas em S. Carlos com uma ópera deste género? Dialogues não é uma ópera como a Traviata: o enredo fantasioso, em que o amor acontece à primeira vista, dá lugar a um libreto cruelmente verosímil e a beleza melódica é reconstruída por uma sonoridade dissonante, produzindo uma sensação de desassossego constante.
A ópera desenvolve-se em torno de um misto de incerteza e medo, propício à apresentação de profundas discussões morais da vida num grupo de carmelitas enclausuradas num convento por tempo indefinido. Dialogues apresenta o medo de ter dúvidas e de não evitar questionar a fé, lado a lado com o medo da desobediência a Deus ou, até mesmo, o receio da perda do sentimento de pertença à sociedade. Agravadamente, as carmelitas também estão sujeitas ao medo de ter medo e à incerteza da vontade divina e de se desviarem de uma possível predestinação. Até na hora final, surge o medo de a dúvida sobre tudo isto impedir Blanche de conformadamente subir as escadas do cadafalso. Dialogues é uma ópera profunda, introspectiva e friamente humana.
Enfim, o P.Z. até estava interessado em ver o trabalho de Luís Miguel Cintra com esta ópera e contava com o empenho dos cantores, que certamente serão bem guiados pelo maestro João Paulo Santos. Por curiosidade, não deixa de se perguntar qual terá sido a motivação para a escolha deste repertório. Afinal de contas, não é nem uma ópera conhecida, nem fácil de se compreender, nem de se interpretar. Que interesse prático estará a ser servido por esta programação? O P.Z. não sabe. Infelizmente, não será desta que o P.Z. voltará a S. Carlos: apenas porque já não há lugares para ver confortavelmente esta ópera que, dependendo da produção, pode ser um grande prazer ou, alternativamente, três horas de sofrimento.
Reflectindo sem rodeios, parece mais do que evidente que uma boa porção daqueles que compraram bilhetes não estava preocupada com que tipo de ópera era; antes com o simples facto de ser uma ópera. Aliás, tal foi a agressividade da campanha de marketing em torno da produção, que até cartazes (dos grandes!) andam espalhados pelas ruas da capital. O P.Z. fica contente por saber que S. Carlos está a atrair público. Para os entendidos, resta esperar que estes Diálogos lhes mereçam a confiança depositada. Quanto aos curiosos… é Poulenc! Os curiosos?! Esses nem imaginam no que se meteram!
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Luciano Pavarotti (1935-2007-2015)
O blog tem estado em hibernação há praticamente um ano; este é um momento oportuno para dar o merecido destaque em forma de tributo ao grande Luciano Pavarotti que, se estivesse ainda entre os comuns mortais, completaria hoje 80 anos de idade. A figura inconfundível de Pavarotti destacou-se de tal forma no panorama da ópera, que se encontra hoje projectada para o universo da pop culture. Embora a sua abordagem musical fosse alvo de louvores e críticas, são os louvores que ainda hoje predominam por via dos abundantes testemunhos que foram registados nos anos áureos do tenor. Além de acumular fama em torno da sua arte e deleitar audiências pelo mundo fora, Pavarotti teve um papel ímpar na história da ópera recente, como divulgador desta arte às massas. Por intervenção da arte do maestro, milhões de pessoas receberam incentivo para conhecer o mundo da ópera, que assim recebeu novo destaque e uma lufada de ar fresco no século passado.
"Como é possível gostar de uma ópera em língua estrangeira?" (crónica)
Uma Questão Relevante
Um leitor perguntou há alguns meses como é possível disfrutar de uma ópera cujo idioma o espectador não compreende. É uma pergunta relevante, que de uma maneira ou doutra todos os apreciadores de ópera aprenderam a ultrapassar. Um primeiro aspecto fundamental e, infelizmente, verdadeiro, é que a ópera não é para todos; é uma arte que requer dedicação para a sua compreensão. Há várias etapas para se alcançar a sublimidade daquilo que é a arte operática. A primeira é, naturalmente, a descoberta de um paradigma artístico diferente, em que a fala é convertida em canto.
Encontre um desafio relativo a este filme no final do texto.
Um Mundo Diferente
Além da barreira do canto—que torna a ópera em algo que se estranha por diferir da vida real—, há a barreira do idioma. Numa primeira fase, o espectador procura converter o canto em linguagem falada, sendo a melhor aproximação possível a leitura das legendas durante o espectáculo. Portanto, nesta fase, o texto funciona como transmissor da história. Nas últimas décadas, quase todos os teatros investiram num sistema de legendagem por cima do palco cénico; porém, nos tempos em que a ópera era mais popular, não havia legendas—o que aponta para o próximo passo. Nesta fase, a música é entendida somente como finalidade decorativa.
Um Segundo Contacto Com a Música
Passadas algumas óperas (6 ou 7, no caso do P.Z.), o espectador já está mais familiarizado com o paradigma da ópera e está pronto para o próximo passo: o reconhecimento da importância da música como elemento dramático fundamental (entenda-se por drama a acção teatral). Neste ponto, o P.Z. diria que já se aprecia a ópera de forma autónoma, pelo que esta situação é condição suficiente para gerar curiosidade artística e um ímpeto para a exploração desta arte. O texto perde relevo e a música começa a tomar conta do panorama geral da ópera.
O Verdadeiro Contacto Com a Música.
À medida que este estado se verifica, o espectador passa a informar-se melhor sobre o libretto, permitindo-se alocar mais atenção ao fio dramático. Torna-se visível que o texto das óperas é sempre o mesmo e, uma vez assimilado, a música ganha cada vez mais relevo e é finalmente reconhecida como o principal veículo de drama. Repare-se que a questão não é a língua em que os cantores cantam; é o drama e a forma como o espectador está predisposto para o sentir através da música e do canto. Isto é, a partir de certo nível, as palavras tornam-se quase irrelevantes.
Naturalmente, ajuda perceber uma palavra ou outra de vez em quando, mas é facultativo desde que se conheça bem a história e se esteja predisposto a absorver o drama através da música. A eficiência desta predisposição vai aumentando à medida que o espectador vai compreendendo melhor o paradigma da ópera. Como prova da irrelevância da língua, o P.Z. pode partilhar a experiência de amigos italianos seus. Eles próprios não percebem muitas das palavras por serem cantadas, mas isso não impede os italianos de serem o povo mais devorador de ópera no mundo.
Hábitos de Ópera
Hoje em dia, em regra, é considerada uma boa prática ler as sinopses das peças antes de se verem no teatro. Porém, antigamente, era vulgar lerem-se traduções completas do libretto—tradição que se perdeu com a presença das legendas. De facto, esta prática permitia aos espectadores aliarem o seu conhecimento prévio sobre a ópera à acção em palco. E, por experiência própria, o P.Z. pode garantir que é muito mais fácil do que se imagina lembrar as leituras prévias quando se está a ouvir a ópera no teatro.
A partir de certo ponto da maturação do espectador, este apercebe-se de que aquilo que, no princípio, era visto como fatalidade (ter de olhar continuamente para cima para ler as legendas e depois para baixo, para ver o palco) é na verdade uma distracção que afecta a dita “eficiência” da fruição do drama.
Um exemplo de topo do poder da música é Wagner. Está tudo na música; todos os elementos dramáticos são audíveis. A leitura do libretto é fundamental visto que estes, em muitos casos, são de grande qualidade literária. Porém, embora o P.Z. não perceba alemão, já chegou a uma fase em que as legendas são evitáveis. Este exemplo é extremo porque o poder de Wagner está tão concentrado na música, que só um espectador muito experiente pode reconhecer a sua grandeza.
A Pergunta Certa e Problemas Subsequentes
A pergunta que motiva este texto é, portanto, a pergunta errada. Não deveria ser “como se aprecia uma ópera, se é numa língua que eu não compreendo”, mas “como se aprende a apreciar a linguagem da ópera”. A resposta, de forma resumida, é não se importar demasiado com o texto e procurar atingir o drama através da música. Esta capacidade desenvolve-se através de pesquisa e interesse, que em princípio se multiplicam a partir do momento em que o espectador encontra uma ópera que o faça sentir na pele o poder da música na ópera. Para o P.Z., foi uma Tosca em S. Carlos.
As más notícias são que gostar de ópera em Portugal pode ser frustrante nos tempos que correm, visto que quanto mais se percebe do assunto, maior é a percepção das rugosidades que prejudicam o espectáculo. Os grandes aficionados ficam limitados a ver DVDs, vídeos no YouTube, ouvir CDs ou até mesmo viajar em busca de boas produções de ópera. E isso nem sempre funciona, posto que infelizmente não se vive propriamente numa era de ouro para a ópera e o 25 de Abril ainda não chegou para a ditadura dos encenadores que assola o teatro em geral.
Desafio
(Vídeo acima.) A ópera é Palhaços, de Leoncavallo. Na ópera, Cânio é uma pessoa "de carne e osso", trabalhando como artista de rua. Quando se vai preparar para o espectáculo dessa noite, descobre a sua mulher com um amante. Mas a hora do espectáculo aproxima-se e, por enquanto, Cânio tem de se vestir e maquilhar como palhaço, tentando esconder a sua angústia. O desafio consiste em ver o vídeo depois de ler a tradução do monólogo de Cânio e procurar encontrar na música o significado do tal "drama":
Quais são as experiências dos leitores?
Um leitor perguntou há alguns meses como é possível disfrutar de uma ópera cujo idioma o espectador não compreende. É uma pergunta relevante, que de uma maneira ou doutra todos os apreciadores de ópera aprenderam a ultrapassar. Um primeiro aspecto fundamental e, infelizmente, verdadeiro, é que a ópera não é para todos; é uma arte que requer dedicação para a sua compreensão. Há várias etapas para se alcançar a sublimidade daquilo que é a arte operática. A primeira é, naturalmente, a descoberta de um paradigma artístico diferente, em que a fala é convertida em canto.
Encontre um desafio relativo a este filme no final do texto.
Um Mundo Diferente
Além da barreira do canto—que torna a ópera em algo que se estranha por diferir da vida real—, há a barreira do idioma. Numa primeira fase, o espectador procura converter o canto em linguagem falada, sendo a melhor aproximação possível a leitura das legendas durante o espectáculo. Portanto, nesta fase, o texto funciona como transmissor da história. Nas últimas décadas, quase todos os teatros investiram num sistema de legendagem por cima do palco cénico; porém, nos tempos em que a ópera era mais popular, não havia legendas—o que aponta para o próximo passo. Nesta fase, a música é entendida somente como finalidade decorativa.
Um Segundo Contacto Com a Música
Passadas algumas óperas (6 ou 7, no caso do P.Z.), o espectador já está mais familiarizado com o paradigma da ópera e está pronto para o próximo passo: o reconhecimento da importância da música como elemento dramático fundamental (entenda-se por drama a acção teatral). Neste ponto, o P.Z. diria que já se aprecia a ópera de forma autónoma, pelo que esta situação é condição suficiente para gerar curiosidade artística e um ímpeto para a exploração desta arte. O texto perde relevo e a música começa a tomar conta do panorama geral da ópera.
O Verdadeiro Contacto Com a Música.
À medida que este estado se verifica, o espectador passa a informar-se melhor sobre o libretto, permitindo-se alocar mais atenção ao fio dramático. Torna-se visível que o texto das óperas é sempre o mesmo e, uma vez assimilado, a música ganha cada vez mais relevo e é finalmente reconhecida como o principal veículo de drama. Repare-se que a questão não é a língua em que os cantores cantam; é o drama e a forma como o espectador está predisposto para o sentir através da música e do canto. Isto é, a partir de certo nível, as palavras tornam-se quase irrelevantes.
Naturalmente, ajuda perceber uma palavra ou outra de vez em quando, mas é facultativo desde que se conheça bem a história e se esteja predisposto a absorver o drama através da música. A eficiência desta predisposição vai aumentando à medida que o espectador vai compreendendo melhor o paradigma da ópera. Como prova da irrelevância da língua, o P.Z. pode partilhar a experiência de amigos italianos seus. Eles próprios não percebem muitas das palavras por serem cantadas, mas isso não impede os italianos de serem o povo mais devorador de ópera no mundo.
Hábitos de Ópera
Hoje em dia, em regra, é considerada uma boa prática ler as sinopses das peças antes de se verem no teatro. Porém, antigamente, era vulgar lerem-se traduções completas do libretto—tradição que se perdeu com a presença das legendas. De facto, esta prática permitia aos espectadores aliarem o seu conhecimento prévio sobre a ópera à acção em palco. E, por experiência própria, o P.Z. pode garantir que é muito mais fácil do que se imagina lembrar as leituras prévias quando se está a ouvir a ópera no teatro.
A partir de certo ponto da maturação do espectador, este apercebe-se de que aquilo que, no princípio, era visto como fatalidade (ter de olhar continuamente para cima para ler as legendas e depois para baixo, para ver o palco) é na verdade uma distracção que afecta a dita “eficiência” da fruição do drama.
Um exemplo de topo do poder da música é Wagner. Está tudo na música; todos os elementos dramáticos são audíveis. A leitura do libretto é fundamental visto que estes, em muitos casos, são de grande qualidade literária. Porém, embora o P.Z. não perceba alemão, já chegou a uma fase em que as legendas são evitáveis. Este exemplo é extremo porque o poder de Wagner está tão concentrado na música, que só um espectador muito experiente pode reconhecer a sua grandeza.
A Pergunta Certa e Problemas Subsequentes
A pergunta que motiva este texto é, portanto, a pergunta errada. Não deveria ser “como se aprecia uma ópera, se é numa língua que eu não compreendo”, mas “como se aprende a apreciar a linguagem da ópera”. A resposta, de forma resumida, é não se importar demasiado com o texto e procurar atingir o drama através da música. Esta capacidade desenvolve-se através de pesquisa e interesse, que em princípio se multiplicam a partir do momento em que o espectador encontra uma ópera que o faça sentir na pele o poder da música na ópera. Para o P.Z., foi uma Tosca em S. Carlos.
As más notícias são que gostar de ópera em Portugal pode ser frustrante nos tempos que correm, visto que quanto mais se percebe do assunto, maior é a percepção das rugosidades que prejudicam o espectáculo. Os grandes aficionados ficam limitados a ver DVDs, vídeos no YouTube, ouvir CDs ou até mesmo viajar em busca de boas produções de ópera. E isso nem sempre funciona, posto que infelizmente não se vive propriamente numa era de ouro para a ópera e o 25 de Abril ainda não chegou para a ditadura dos encenadores que assola o teatro em geral.
Desafio
(Vídeo acima.) A ópera é Palhaços, de Leoncavallo. Na ópera, Cânio é uma pessoa "de carne e osso", trabalhando como artista de rua. Quando se vai preparar para o espectáculo dessa noite, descobre a sua mulher com um amante. Mas a hora do espectáculo aproxima-se e, por enquanto, Cânio tem de se vestir e maquilhar como palhaço, tentando esconder a sua angústia. O desafio consiste em ver o vídeo depois de ler a tradução do monólogo de Cânio e procurar encontrar na música o significado do tal "drama":
"Actuar! Enquanto estou preso pelo delírio
Já não sei o que digo ou o que faço!
Então vamos, esforça-te!
Mas és tu um homem?!
Tu és palhaço.
Veste o fato e e enfarinha a cara
As pessoas pagam, e querem rir
E se o arlequim te rouba a colombina
Ri, palhaço, e todos aplaudirão!
Transformas em pantomimas o riso e o pranto
E, numa metamorfose, o soluço e a dor...
Ah, ri, palhaço, sobre o teu amor destroçado!
Ri da dor que te envenena o coração!"
Quais são as experiências dos leitores?
O Marketing como Forma de Cultura, ou o sucesso de Rui Massena (crónica)
Está mais do que visto que
a maior parte dos programas que passam em “três canais” não se podem levar a
sério. Ainda assim, o P.Z. não resiste a dar uma vista de olhos aos podcasts de
alguns dos programas de concursos e apareceu este vídeo, em que se canta “O mio
babbino caro”. O P.Z. sugere aos leitores que o vejam, com especial destaque
para o comentário do Maestro Rui Massena. Em época de penumbra—em que não se
tem a certeza sobre a permanência de Pinamonti como director artístico de
facto—levantam-se dúvidas sobre a necessidade de um director de jure.
Antes de Pinamonti ser nomeado “consultor artístico”, houve vários boatos
acerca e quem preencheria a vaga; um deles apontava para Rui Massena. Por
enquanto, se há boatos, o P.Z. não ficaria admirado por saber que o maestro Rui
Massena, jurado do programa “Got Talent
Portugal”, surge novamente.
Por parte de algum membro
do secretariado de estado da (in)cultura, chegar a Rui Massena é o mais fácil
que há: basta ligar a televisão ao fim de domingo, e na RTP1 lá está ele. Um
homem novo, com um ar inovador (leia-se carismático), tratado por maestro.
Vai-se ao site do programa, e lá se encontra o currículo do maestro: “uma
conhecida figura do panorama cultural nacional que ajudou a transformar
Guimarães 2012 … num estrondoso caso de sucesso”, que “deixou sementes para o
futuro [de] uma instituição singular, que conseguiu um tremendo êxito”, que foi
“maestro convidado principal [em] Roma”, distinta “também a proeza” de tal e
tal, em grande “sucesso”. De facto, “Não faltam troféus” a Rui Massena: uma “Medalha
de Mérito Cultural” e outra “Medalha de Ouro de Mérito Cultural e Científico”; terminando
em grandeur com “Berlim … reconhecendo assim o seu enorme valor
cultural”. Uau! Que currículo bestial!
(O P.Z. pergunta-se quem é o dono de tantos adjectivos.) Este é o homem
indicado para dirigir o Teatro Nacional de São Carlos. Um indivíduo jovem, com
um currículo composto somente por “sucessos estrondosos”—ideal para renovar
essa coisa velha e caduca que é a ópera que eu nunca percebi muito bem mas é “do
social”, e que durante anos (até há um ano, quando Pinamonti chegou) só perdeu
audiência. Fácil, simples e eficaz—até dá votos de algumas pessoas que costumam
ver os programas de domingo à tarde.
Agora, em análise ao tal
“Babbino caro”. Embora a voz da intérprete seja bonita, apresenta falhas
rítmicas constantes, notas e palavras inventadas e um final numa nota
completamente ao lado. Em suma, uma interpretação modesta mas muito fraca. Sem esmiuçar
a redundância dos comentários de Manuel Moura dos Santos ou o comentário de
Sofia Escobar (que, dado o seu distinto currículo musical no West End, só se
pode dever a obrigações contratuais para com o programa), o comentário mais
acertado é o de Pedro Tochas, que não percebendo nada do assunto contorna
qualquer comentário sobre o canto em si. Mas o que choca mesmo é o comentário
de Rui Massena—um indivíduo que, aos olhos da maior parte da população
portuguesa (e provavelmente de muitos dos membros do secretariado de estado da
(in)cultura), se afigura como um maestro “de música clássica” com um tremendo
“mérito cultural”.
Consistentemente com a sua
popular fama de maestro, Rui Massena simulou que estava a dirigir a orquestra
durante o playback. O P.Z. suspeitaria que isto se deve a marketing
pessoal, visto que os comentários faz de seguida revelam um surpreendente
desconhecimento sobre canto lírico e ópera. Quando Manuel Moura dos Santos
começa o seu comentário, pergunta o nome da ópera e o compositor. A resposta é “Nabucco, de Puccini”. Compreensivelmente, Moura dos Santos
não é um maestro e, sem saber que a ópera é Gianni Schicchi de Puccini,
faz notar apenas que Nabucco é de Verdi e não de Puccini. Seria de
esperar que o Maestro os elucidasse sobre aquela que é provavelmente a ária de
soprano mais mediática de toda a ópera. Mas Rui Massena, apesar de fazer todos
os possíveis para mostrar que percebe do assunto (incluindo simular dirigir a
orquestra) não disse nada. Adensa-se a suspeita nos seus comentários seguintes
de que é porque não sabe.
Como não tenha nada para
dizer além dos comentários de marketing, começa por dizer que não resiste “a
esta boa música”—de modo a salientar que ele é “o” maestro da televisão.
Prossegue com o cliché de sentir que a música está num colete de forças
por ser em playback e não com orquestra, embora o que seja mesmo negativamente
conspícuo seja a adaptação da orquestração para uma versão pirosa. Portanto,
marketing para substituir a falta de conhecimento sobre a qual apoia a sua
carreira.
Porém, a cereja no topo do
bolo é que a seguir a estes comentários, sem quaisquer observações técnicas,
Massena parabeniza a concorrente e subscreve as palavras de Moura dos Santos. Quando
este, na verdade, demonstrou escasso conhecimento sobre o que é cantar ópera.
Isto foi especialmente evidente visto que, nestes concursos, Moura dos Santos é
conhecido por ser desagradável na forma como implacavelmente aponta todos
os defeitos aos concorrentes. Por outro lado, esse seu lado icónico
frequentemente faz com que os jurados indecisos repitam o que ele disse. Também
é prova da falta de conhecimento sobre ópera o facto de subscrever as palavras
do outro jurado sem pelo menos comentar o assunto do nome da ópera e o
compositor—o que, afinal, não deveria ser assim tão difícil para um maestro tão
admirável como ele.
Com este texto, o P.Z.
espera deixar claro que se recusa a ver qualquer espectáculo de música clássica
que tenha a mão do grande self-marketeer Rui Massena e não porá os pés
em S. Carlos caso o seu nome apareça associado. Porque parece que o seu conhecimento
é apenas ilusão e o resto é marketing pessoal. Se restarem dúvidas, os leitores
podem investigar a campanha de promoção do “novo CD do maestro” ou imaginar o
que, no caso de Massena passar a exercer funções numa instituição cultural
única, ele diria à produtora do “Got Talent Portugal” se lhe pedissem para usar
o espaço para filmar o programa. Ainda mais com os antecedentes de Maria
Bethânia e a noite de fados.
5 anos!!
Os últimos meses deste blog têm sido de escassez, embora o P.Z. tenha recentemente vivido o período operático mais intenso da sua vida. (Calma, foi no estrangeiro…) Passe agora a mensagem: o P.Z. ainda está vivo! Há um ano, circulou um inquérito sobre o blog, cuja conclusão geral é que falta frequência na actualização. O melhor será advertir desde já os leitores de que melhorar esse aspecto será difícil visto que este blog é, sobretudo, sobre “Ópera & Música Clássica em Lisboa.” Quanto a ópera, não garante um post por mês; e a vertente de música clássica (leia-se Gulbenkian) é a que menos atrai leitores, pelo que raramente é justificável escrever sobre o assunto. O P.Z. vai tentar o seu melhor—não ficou esquecido quem perguntou como é que se pode apreciar ópera em línguas estrangeiras—mas, ainda assim, o P.Z. não pode assegurar mais de um post por mês. O P.Z. poderá escrever mais crónicas. Porém, ainda assim, estas têm alguma audiência mas pouco servem o seu objectivo: estimular os leitores a trocarem opiniões. Quem for muito curioso pode seguir o P.Z. neste outro blog (em inglês). Mais textos na próxima semana!
Drama (crónica)
Há boas notícias e más notícias. As boas são que a última Macbeth do Teatro de S. Carlos pode ser encarada como uma ópera, com coerência e um tom geral de espectáculo. Os solistas apresentaram-se em grande nível, pesem embora uma pobre direcção musical e, de certo modo, uma fraca direcção de actores digna do teatro Mariinsky, onde Don Giovanni e Aida são dados aparentemente sem ensaio geral. Desta situação é prova a constante alternação entre opções não convencionais, como em “la luce langue,” e a acção simplesmente convencional de quaisquer personagens secundárias.
As más notícias são precisamente essas: um bom espectáculo, provavelmente ao nível de atrair e manter audiências, mas com uma sensação dramática quase nula. Por outras palavras, esta produção foi boa mas não era possível entrar dentro dela. Para sua sorte, alguns leitores já se esqueceram—se é que sabem—o que isso é. E o P.Z. pode garantir que é possível prestar total atenção a uma ópera: estar mais preocupado com o drama do que com a técnica vocal ou com aquela cadeira que tremia; sentir na pele o arrepio daquele momento em que a orquestra cresce ou quando as vozes se unem; ou quando texto e música se cruzam em perfeita sintonia.
É possível fazer ópera diferentemente de qualquer vaudeville, em que os actos de ilusionismo se seguem em perfeita harmonia à execução a números líricos. Na ópera, a junção chama-se drama: quando os intérpretes são excelentes, a encenação tem um conceito bem desenvolvido, a orquestra ajuda e tudo se compõe em irresistível sintonia dramática. O P.Z. compreende, portanto, as críticas negativas em relação à recente produção de Macbeth em S. Carlos, se bem que não tenha a certeza de qual seja o segredo de alguns grandes teatros para produzir este efeito. Neste caso, as pequenas distrações estiveram em demasia, como foi apontado. A questão é perceber o que está para além disso.
Numa entrevista recente, Plácido Domingo—o rei que tem disfrutado de 6 décadas de grandes louros—comentou que o “nível de qualidade” da produção de ópera tem aumentado devido à intensificação dos ensaios gerais. Porém, sabe-se que isso é difícil em S. Carlos, onde os subsídios estatais são menores e os bilhetes relativamente baratos, concorrendo para orçamentos reduzidos. Em última análise, o drama escasseia em Lisboa embora as condições necessárias em termos vocais estejam já reunidas. Se não tivesse sido o caso, o P.Z. teria prontamente avaliado esta Macbeth em 5 estrelas, apesar de comparar duplas como Rysanek e Warren ou Netrebko e Lučik a Matos e Òdena ser um salto bem arrojado.
As más notícias são precisamente essas: um bom espectáculo, provavelmente ao nível de atrair e manter audiências, mas com uma sensação dramática quase nula. Por outras palavras, esta produção foi boa mas não era possível entrar dentro dela. Para sua sorte, alguns leitores já se esqueceram—se é que sabem—o que isso é. E o P.Z. pode garantir que é possível prestar total atenção a uma ópera: estar mais preocupado com o drama do que com a técnica vocal ou com aquela cadeira que tremia; sentir na pele o arrepio daquele momento em que a orquestra cresce ou quando as vozes se unem; ou quando texto e música se cruzam em perfeita sintonia.
É possível fazer ópera diferentemente de qualquer vaudeville, em que os actos de ilusionismo se seguem em perfeita harmonia à execução a números líricos. Na ópera, a junção chama-se drama: quando os intérpretes são excelentes, a encenação tem um conceito bem desenvolvido, a orquestra ajuda e tudo se compõe em irresistível sintonia dramática. O P.Z. compreende, portanto, as críticas negativas em relação à recente produção de Macbeth em S. Carlos, se bem que não tenha a certeza de qual seja o segredo de alguns grandes teatros para produzir este efeito. Neste caso, as pequenas distrações estiveram em demasia, como foi apontado. A questão é perceber o que está para além disso.
Numa entrevista recente, Plácido Domingo—o rei que tem disfrutado de 6 décadas de grandes louros—comentou que o “nível de qualidade” da produção de ópera tem aumentado devido à intensificação dos ensaios gerais. Porém, sabe-se que isso é difícil em S. Carlos, onde os subsídios estatais são menores e os bilhetes relativamente baratos, concorrendo para orçamentos reduzidos. Em última análise, o drama escasseia em Lisboa embora as condições necessárias em termos vocais estejam já reunidas. Se não tivesse sido o caso, o P.Z. teria prontamente avaliado esta Macbeth em 5 estrelas, apesar de comparar duplas como Rysanek e Warren ou Netrebko e Lučik a Matos e Òdena ser um salto bem arrojado.
Macbeth no Teatro Nacional de São Carlos (crítica)
Quando se fala em Macbeth, há sempre uma certa dúvida acerca do género. Sendo Macbeth uma ópera que narra a história da ascensão e queda de Macbeth, senhor de Cawdor, deverá ser uma referência no masculino. Porém, a imagem que surge por trás deste desenvolvimento sombrio e sangrento, é a de Lady Macbeth—o que aponta para um nome feminino. Há dois planos de acção: um activo, pela mão de Lady Macbeth, e um passivo, representado pelo próprio Macbeth. Elena Barbalich, na qualidade de encenadora, resolve esta dualidade, apresentando a peça como “o círculo do poder.” Embora não o faça por escrito, fá-lo por via da encenação, colocando novamente (desde 2007) um olho espelhado no centro da cena. Para as bruxas, é o “caldeirão”, obtendo um efeito curioso na primeira cena; para os Macbeth, é a mesa do poder na cena do banquete. O “círculo do poder” só desaparece à medida que a resistência escocesa se adensa para o grande final. Embora simples, o conceito da encenação de Barbalich não é necessariamente óbvio e nota-se falta de teatralidade ao subir do pano após a queima do castelo ou no manuseamento dos espelhos. Além disso, é bastante óbvio que alguns adereços foram mal pensados—como é exemplo óbvio a cadeira do Rei, que é torta e poderia ser transformada numa cena chave se fosse mais prática no acto III. Porém, se alguns aspectos não funcionam por serem demasiado baratos, há exemplos que funcionam muito bem, como a visão do fantasma durante o banquete.
O P.Z. pergunta-se qual terá sido o principal critério de escolha para a produção do Don Carlo há uns anos, e pôs a mesma pergunta em relação a esta Macbeth. Naturalmente, devido ao repertório de Elisabete Matos—o que é uma iniciativa louvável, tendo em conta o carinho com que o público recebe a cantora. Ninguém se lembrou, porém, de que por mais potentes que estas duas produções fossem—e esta Macbeth tem alguns momentos muito dramaticamente envolventes, como a segunda cena das bruxas—, estariam sempre na sombra das recentes transmissões em HD. Este texto é uma tarefa ingrata, visto que distingue o muito bom do sublime. Macbeth requer um barítono em total controlo sobre as suas capacidades dramáticas, com postura comandante como se esperaria de um rei ou de um Otelo, e isso está maioritariamente presente no retrato de Àngel Òdena. Nota-se que Òdena ainda tem caminho a trilhar pelo seu Macbeth (sobretudo a nível dramático) mas a sua voz tipicamente verdiana consegue servir bem os objectivos do programa. Muito agradaria ao P.Z. voltar a ouvir este barítono na Força do Destino ou no Baile de Máscaras.
A vantagem de se ter escolhido esta ópera—pondo de parte que não deixa de ter ficado na sombra da Netrebko—foi a própria Elisabete Matos. Lady Macbeth foi um dos seus sucessos recentes; apresenta-se agora com um retumbante sucesso, com o papel certamente mais amadurecido. Apesar de o P.Z. ser abertamente um admirador de Elisabete Matos, mantém algumas reservas que nem sempre exprime neste blog, sobretudo ao nível da estridência nas notas agudas. Esse e o vibrato foram os problemas no Don Carlo, e o P.Z. estava completamente pronto para lidar com o primeiro. Mas advinhe-se: não foi preciso! Ouviu-se precisão, técnica e dramatismo discretamente aliados pela experiência. A ária “vieni t’affretta” foi magistralmente interpretada, bem como a cena do sonambulismo.
A cena do banquete foi especialmente esperada pelo P.Z., visto que tinha sido apresentada no concerto comemorativo de 25 anos de careira de Elisabete Matos há algum tempo, com Juan Pons como Macbeth. Foi um bom regresso, repleto de referências ao dito “círculo do poder,” se bem que tenha pedido algo mais do Macbeth de Òdena. O fantasma do assassinado Banco surge com as mãos ensanguentadas, levando Macbeth à beira da colapso, agora que usa na cabeça a coroa afiada da Escócia. O Banco de Giacomo Prestia, embora não intervenha activamente na cena do banquete, esteve em excelente plano vocal, bem como o Malcolm de Marco Alves dos Santos. Mais uma vez, o último sugeriu ter capacidade de interpretar um grande papel do bel-canto, sem a vaidade de vários cantores que se fizeram ao aplauso.
A direcção musical de Domenico Longo esteve, porém, aquém do esperado. Os tempos empregados frequentemente soaram a ensaio e a orquestra poucas vezes cresceu à altura da intensidade dramática. Aos olhos do P.Z., este foi o principal defeito desta Macbeth. Estando Macbeth vencido e virando-se a profecia das bruxas a favor de Malcolm, este dirige-se para a coroa afiada que o espera: de novo, o círculo do poder não perdoa a “pátria oprimida”.
★★★★
O P.Z. pergunta-se qual terá sido o principal critério de escolha para a produção do Don Carlo há uns anos, e pôs a mesma pergunta em relação a esta Macbeth. Naturalmente, devido ao repertório de Elisabete Matos—o que é uma iniciativa louvável, tendo em conta o carinho com que o público recebe a cantora. Ninguém se lembrou, porém, de que por mais potentes que estas duas produções fossem—e esta Macbeth tem alguns momentos muito dramaticamente envolventes, como a segunda cena das bruxas—, estariam sempre na sombra das recentes transmissões em HD. Este texto é uma tarefa ingrata, visto que distingue o muito bom do sublime. Macbeth requer um barítono em total controlo sobre as suas capacidades dramáticas, com postura comandante como se esperaria de um rei ou de um Otelo, e isso está maioritariamente presente no retrato de Àngel Òdena. Nota-se que Òdena ainda tem caminho a trilhar pelo seu Macbeth (sobretudo a nível dramático) mas a sua voz tipicamente verdiana consegue servir bem os objectivos do programa. Muito agradaria ao P.Z. voltar a ouvir este barítono na Força do Destino ou no Baile de Máscaras.
A vantagem de se ter escolhido esta ópera—pondo de parte que não deixa de ter ficado na sombra da Netrebko—foi a própria Elisabete Matos. Lady Macbeth foi um dos seus sucessos recentes; apresenta-se agora com um retumbante sucesso, com o papel certamente mais amadurecido. Apesar de o P.Z. ser abertamente um admirador de Elisabete Matos, mantém algumas reservas que nem sempre exprime neste blog, sobretudo ao nível da estridência nas notas agudas. Esse e o vibrato foram os problemas no Don Carlo, e o P.Z. estava completamente pronto para lidar com o primeiro. Mas advinhe-se: não foi preciso! Ouviu-se precisão, técnica e dramatismo discretamente aliados pela experiência. A ária “vieni t’affretta” foi magistralmente interpretada, bem como a cena do sonambulismo.
A cena do banquete foi especialmente esperada pelo P.Z., visto que tinha sido apresentada no concerto comemorativo de 25 anos de careira de Elisabete Matos há algum tempo, com Juan Pons como Macbeth. Foi um bom regresso, repleto de referências ao dito “círculo do poder,” se bem que tenha pedido algo mais do Macbeth de Òdena. O fantasma do assassinado Banco surge com as mãos ensanguentadas, levando Macbeth à beira da colapso, agora que usa na cabeça a coroa afiada da Escócia. O Banco de Giacomo Prestia, embora não intervenha activamente na cena do banquete, esteve em excelente plano vocal, bem como o Malcolm de Marco Alves dos Santos. Mais uma vez, o último sugeriu ter capacidade de interpretar um grande papel do bel-canto, sem a vaidade de vários cantores que se fizeram ao aplauso.
A direcção musical de Domenico Longo esteve, porém, aquém do esperado. Os tempos empregados frequentemente soaram a ensaio e a orquestra poucas vezes cresceu à altura da intensidade dramática. Aos olhos do P.Z., este foi o principal defeito desta Macbeth. Estando Macbeth vencido e virando-se a profecia das bruxas a favor de Malcolm, este dirige-se para a coroa afiada que o espera: de novo, o círculo do poder não perdoa a “pátria oprimida”.
★★★★
Giacomo Puccini, 1924-2014
Contam-se amanhã 90 anos desde o desaparecimento de um dos mais respeitados compositores de sempre: Giacomo Puccini. No dia 29 de Novembro de 1924, Puccini deixaria Turandot incompleta devido a complicações pós-operação a um cancro na garganta. Dois anos mais tarde, quando se estreou a Turandot no Teatro alla Scala, o maestro Toscanini parou a música depois da morte de Liù e dirigiu-se à audiência: "aqui termina a ópera pela morte do autor." Outros dizem que foi mais poético, como "aqui, Puccini pousou a caneta."
As primeiras óperas do P.Z. foram de Verdi e Bizet; mas as que verdadeiramente acenderam aquela chama de melómano foram a Tosca e a Bohème. A celebração do P.Z. foi ontem, no Teatro Mariinsky, com O Tríptico (Il Tabarro, Suor Angelica e Gianni Schicchi); o impacto foi maravilhoso. Quais foram os melhores momentos que Puccini proporcionou aos leitores?
O suspense na ópera e em “Il Tabarro”
No século XIX, Wagner apresentou dramas musicais épicos com
um sentido próprio de um dito “suspense”. Restava prosseguir o trabalho do mestre,
juntando esse dito conceito a algo que a ópera conhece bem—o assassínio.
Debussy obteve um efeito interessante com Pelléas et Melisande, criando uma
aura de morte quase mórbida. Todavia, a preocupação com o suspense foi de tal
ordem, que Pelléas permanece no repertório como uma ópera imponentemente
nebulosa—outra maneira de dizer cavernosa e pouco acessível. À sua maneira
germânica, Richard Strauss também obtém efeitos de suspense impressionantes com
Salomé e Elektra. Ao contrário de Pelléas, que aparenta
caminhar para uma morte obscura, Salomé começa com o suicídio de
Narraboth, cujo corpo permanece parte da ópera em palco até Herodes notar. “Que
faz este homem aqui? Não mandei matá-lo. Não quero vê-lo aqui”, indaga Herodes,
misteriosamente atormentado por uma dantesca sensação auditiva de “um bater de
asas gigantescas.” Ao longo da ópera, à medida que o ambiente se adensa,
Herodes vai libertando a sua pressão, evidenciando a bolha de suspense que se
vem formando. Já perto do final, exclama “escondam a lua, escondam as estrelas!
Algo horrível vai acontecer!”, ouvindo-se de seguida o motivo (já em si
inquietante) de Salomé.
O repertório comum da ópera italiana raramente encontra este
tipo de ambiente. Puccini consegue algumas aproximações com a música do final
do acto II e o amanhecer na Tosca e, na Butterfly, com o dueto
das flores e o coro em boca fechada; mas não se tratam de construções
elaboradas ao longo de uma ópera inteira. Ainda no século XIX, houve algumas
tentativas por Verdi, com O Trovador (“Stride la vampa!”, “miserere”),
o Ernani ou A Força do Destino e outras obras que parecem
convergir para uma fatalidade. (Aliás, a propósito do Trovador, o PZ
ficou admirado com a última encenação em S. Carlos por causa da aura de
mistério que se desenvolvia a partir do acampamento dos ciganos.) Com a cena do
julgamento, a Aida também apresenta alguns momentos de suster a
respiração. Contudo, as obras de Verdi primam pelo seu lirismo mais do que pela
criação de suspense. Na verdade, nem na ópera italiana, nem na ópera em geral
existiu uma corrente “suspensionista”. A obra de Wagner cuida de profundas
discussões sobre a humanidade; Verdi procura o elo entre o bel canto e a
grand opéra; Debussy não deixou outras óperas além de Pelléas e Strauss
acabou por inflectir para uma via mais poética do que Salomé ou Elektra.
No Onegin de Tchaikovsky, a ária de Lensky anterior ao duelo (Kuda,
kuda…) transborda emoção e lirismo em vez de inquietação. Foi Puccini quem teve
de abrir caminho para encontrar o “amor, e amor violento” tão necessitado na
ópera.
Dificilmente se pode pensar na doença—o único mau na Bohème—como
“amor violento”; o expectador terá de se contentar com as referências nos
versos a um Rodolfo “colérico, lunático e cheio de preconceitos”. Mas o acto II
da Tosca e o suicídio da Butterfly por seppuku têm outra figura.
Em 1910, como aqui se celebrou, Puccini levou ao palco da antiga Metropolitan
Opera o Johnson de Caruso a ser enforcado no acto III, depois de levar um tiro
no acto anterior; Minnie empunha uma espingarda para salvar o seu bandido
amado. Nenhum compositor tinha sido tão ousado até à data. Houvera homicídios e
suicídios; duelos e veneno: mas nunca uma diva a saltar do Castelo de S.
Ângelo; nunca um seppuku japonês; nunca um enforcamento nem uma mulher
pronta para disparar sobre quem quiser tirar a vida ao seu amado. Como na Fanciulla
del West, nem mesmo Florestan e Leonor (Fidelio).
Existe uma raridade que, nos últimos meses, tem chamado a
atenção do P.Z. Trata-se provavelmente de um expoente do estilo; é uma ópera
simples, concisa e completamente absorvente. Em bom rigor, não se deveria
chamar ópera a Il Tabarro, visto que é apenas uma parte de 3 que compõem
O Tríptico de Puccini. Porém, nesta peça de 50 minutos, todos os
personagens parecem esconder alguma coisa. Que procura Luigi? Se está pronto
para espetar a navalha e sufocar Michele em sangue para ficar com Giorgetta,
porque não prefere ele simplesmente fugir com ela?
Há alguns meses, o “Ars Super Omnia” partilhou um artigo
muito interessante de Cambridge que discutia as hipóteses e o suspense no Lohengrin
de Wagner com a pergunta proibida (Frageverbot), aplicando teoria dos
jogos. (Perguntar, não perguntar; Lohengrin impostor versus salvador.) Tal como
no Lohengrin, a pergunta “que procura Luigi?” é função da intenção da
personagem. Nesta caso, “matar Michele?” versus “continuar a bordo?”. No final
do segundo dueto, Luigi afirma claramente num momento climático “sim, juro-te
que não tremo, espetar-lhe-ia esta faca e com o seu sangue faria uma joia para
ti!”, o que sugere intenção de matar o chefe. Matando, não faria sentido fugir,
visto que fugir não implica a morte de Michele; em contrapartida, a fuga seria
possível com Michele vivo e poderia ser realizada em Rouen. Não fica claro
porque pede Luigi ao chefe para o desembarcar em Rouen; a própria Giorgetta confirma
“diz-me porque lhe pediste que te desembarcasse em Rouen”. O desembarque em
Rouen poderia ter, portanto, dois desfechos: uma fuga conjunta com Giorgetta ou
uma tentativa de a deixar.
Mas, quando Michele lhe diz que é melhor continuar a bordo e
Luigi anui, se for sua intenção matar o outro, parece que a resposta a “quem é
Luigi?” se inclina para “um rapaz ganancioso em busca de trocar o posto com o
patrão”. Permanece, porém, a dúvida de Rouen, que dá relevância a esta análise.
De facto, há quatro cenários possíveis para Luigi: um ganancioso, um
conformista, um cínico e um psicopata.
Recapitulando, Luigi pode ficar a bordo ou sair em Rouen.
Apesar de pedir para ser desembarcado em Rouen, não é possível ter a certeza de
qual é a sua intenção, visto que pode ser apenas apressar Giorgetta a abandonar
“esta vida vagabunda” com ele e começar uma nova vida nos subúrbios de Paris.
Um momento climático da ópera ocorre quando Luigi afirma decididamente que está
pronto para assassinar Michele, seu empregador e marido da sua amante
Giorgetta. Abrem-se, assim, mais duas janelas: Luigi pode pretender, de facto,
matar, ou apenas atrair Giorgetta com a ilusão de que podem fugir sem serem
perseguidos. Ou até talvez largar o cadáver do outro e zarpar no barco pelo
Sena acima sem que ninguém os possa identificar, sendo o lucro não só uma nova
vida, mas também um sustento garantido com uma autonomia renovada. Cruzando-se
estes pares de possibilidades, abrem-se quatro janelas, que acabam sendo
tragicamente fechadas no final de Il Tabarro. Parece um filme de
Hitchcock, em que todos escondem qualquer coisa, a história vira-se e acaba por
ser o próprio Michele o assassino de Luigi, deixando incerteza total sobre a
personalidade de uma personagem principal.
Outra virtude desta ópera reside na música. Quando o pano
sobe, há uma descrição perfeita da oscilação das ondas do Sena e dos barcos que
vão passando. Durante alguns segundos, a atmosfera torna-se apaixonante, mas
imediatamente surge uma desenvoltura mais dramática—discutivelmente um encontro
de olhares entre Giorgetta e Michele—apontando para um amor proibido. Desde a
música de abertura, a partitura é sempre absorvente, apresentando-se em
sintonia com a acção e revelando algumas ironias (como o vendedor de canções
durante uma discussão matrimonial). O suspense vai sendo construído. Há uma
conversa de amigos que, apesar de referir apenas o amor pela vida nos subúrbios
em detrimento desta “vida vagabunda” num barco, deixa óbvio que subjaz uma
intenção amorosa, primorosamente suportada pela música. Aliás, a Frugola nota
ironicamente “ah, agora percebo, a vida é diferente a bordo”. Na produção da
Metropolitan Opera de 1991 (Domingo, Pons, Stratas), esta frase surge em tom
amigável, enquanto a produção de 1981 (Scotto, McNeil, Moldoveanu) usa este
momento como uma censura, demonstrando o espaço de manobra que esta ópera tem
dentro das incertezas que gera.
Quando a Frugola sai de cena, há um momento delicioso, um
vai-e-vem, cheio de hesitações entre Luigi e Giorgetta, sucedido pelo referido
dueto em que Luigi abre o jogo. Ao momento climático, segue-se uma resposta: a
origem do insucesso do casamento de Michele e Giorgetta. Parece ter havido um
tempo remoto (“tardes como estas”) em que tudo estava bem; depois, houve a
perda de um filho. Giorgetta diz que já não é a mesma e também Michele mudou, à
medida que o influxo musical da tenção de uma discussão matrimonial assenta no
vazio com a orquestra a reduzir-se ao cromatismo da paz da ondulação do Sena:
“é melhor não recordar…/ hoje é melancolia”…
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