Waltraud Meier na Gulbenkian

Para os mais distraídos: é já amanhã que Waltraud Meier, uma das principais intérpretes wagnerianas dos anos 90, cantará as Wesendonck lieder de Wagner na Gulbenkian! A segunda récita será na sexta-feira. A lotação está longe de ser esgotada: será assim que Lisboa vai saudar esta lenda? Se fosse Live in HD, como quando interpretou Waltraute no Crepúsculo dos Deuses (2012), os bilhetes já teriam desaparecido há muito!

Para atrair os fãs do Met Live in HD, entremos em modo de preparação com este excerto de Tristão e Isolda, especialmente seleccionado da gala Levine (1996) na Metropolitan Opera.
 


Para aqueles que não são HD-ófilos, fica também o Liebestod, a famosa cena final da mesma ópera, neste caso convenientemente legendada em francês e gravada no Teatro alla Scala de Milão com a direcção musical do maestro Barenboim. (Esta gravação não é brilhante; se o leitor estiver mais interessado na qualidade vocal do que nas legendas, ouça antes esta versão de Bayreuth).



O P.Z. já está em modo Waltraud Meier. E o leitor??

Leia a crítica do P.Z. aqui.

Dialogues des Carmélites no Teatro Nacional de São Carlos (crónica)















 (Foto)

Onze meses, cinco óperas e duas peregrinações operáticas depois, seria desta que o P.Z. voltaria a S. Carlos! Dialogues des Carmélites, de Poulenc, parecia um título suficientemente atractivo. Trata-se de uma ópera raramente vista, extremamente difícil de interpretar e de apreciar. Porém, defensores de ópera mais moderna encontram nela grande valor. O P.Z. tem uma atitude exploratória em relação a este género de música porque teve duas experiências recentes que lhe mostraram o poder deste tipo de ópera: O Jogador, de Prokofiev, e Pelléas et Mélisande, de Debussy. São obras intimamente ligadas à expressão desinibida do sentimento humano, sendo o drama fortemente subsidiário da miséria e da aflição das personagens. Além das singularidades estilísticas da música, a preferência por este tipo de abordagem artística à vida é altamente discutível.

Para muitos daqueles que já ouviram e já esqueceram as traviatas e os rigoletos, Diálogos das Carmelitas pode parecer uma atracção exótica e sugestiva. Inesperadamente, há já pouquíssimos bilhetes à venda. Haverá assim tantos apreciadores de ópera em Portugal? E tantos desses dispostos a arriscar ficar a penar mais de três horas em S. Carlos com uma ópera deste género? Dialogues não é uma ópera como a Traviata: o enredo fantasioso, em que o amor acontece à primeira vista, dá lugar a um libreto cruelmente verosímil e a beleza melódica é reconstruída por uma sonoridade dissonante, produzindo uma sensação de desassossego constante.

A ópera desenvolve-se em torno de um misto de incerteza e medo, propício à apresentação de profundas discussões morais da vida num grupo de carmelitas enclausuradas num convento por tempo indefinido. Dialogues apresenta o medo de ter dúvidas e de não evitar questionar a fé, lado a lado com o medo da desobediência a Deus ou, até mesmo, o receio da perda do sentimento de pertença à sociedade. Agravadamente, as carmelitas também estão sujeitas ao medo de ter medo e à incerteza da vontade divina e de se desviarem de uma possível predestinação. Até na hora final, surge o medo de a dúvida sobre tudo isto impedir Blanche de conformadamente subir as escadas do cadafalso. Dialogues é uma ópera profunda, introspectiva e friamente humana 

Enfim, o P.Z. até estava interessado em ver o trabalho de Luís Miguel Cintra com esta ópera e contava com o empenho dos cantores, que certamente serão bem guiados pelo maestro João Paulo Santos. Por curiosidade, não deixa de se perguntar qual terá sido a motivação para a escolha deste repertório. Afinal de contas, não é nem uma ópera conhecida, nem fácil de se compreender, nem de se interpretar. Que interesse prático estará a ser servido por esta programação? O P.Z. não sabe. Infelizmente, não será desta que o P.Z. voltará a S. Carlos: apenas porque já não há lugares para ver confortavelmente esta ópera que, dependendo da produção, pode ser um grande prazer ou, alternativamente, três horas de sofrimento.

Reflectindo sem rodeios, parece mais do que evidente que uma boa porção daqueles que compraram bilhetes não estava preocupada com que tipo de ópera era; antes com o simples facto de ser uma ópera. Aliás, tal foi a agressividade da campanha de marketing em torno da produção, que até cartazes (dos grandes!) andam espalhados pelas ruas da capital. O P.Z. fica contente por saber que S. Carlos está a atrair público. Para os entendidos, resta esperar que estes Diálogos lhes mereçam a confiança depositada. Quanto aos curiosos… é Poulenc! Os curiosos?! Esses nem imaginam no que se meteram!



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Luciano Pavarotti (1935-2007-2015)


O blog tem estado em hibernação há praticamente um ano; este é um momento oportuno para dar o merecido destaque em forma de tributo ao grande Luciano Pavarotti que, se estivesse ainda entre os comuns mortais, completaria hoje 80 anos de idade. A figura inconfundível de Pavarotti destacou-se de tal forma no panorama da ópera, que se encontra hoje projectada para o universo da pop culture. Embora a sua abordagem musical fosse alvo de louvores e críticas, são os louvores que ainda hoje predominam por via dos abundantes testemunhos que foram registados nos anos áureos do tenor. Além de acumular fama em torno da sua arte e deleitar audiências pelo mundo fora, Pavarotti teve um papel ímpar na história da ópera recente, como divulgador desta arte às massas. Por intervenção da arte do maestro, milhões de pessoas receberam incentivo para conhecer o mundo da ópera, que assim recebeu novo destaque e uma lufada de ar fresco no século passado.