Quando se fala em Macbeth, há sempre uma certa dúvida acerca do género. Sendo Macbeth uma ópera que narra a história da ascensão e queda de Macbeth, senhor de Cawdor, deverá ser uma referência no masculino. Porém, a imagem que surge por trás deste desenvolvimento sombrio e sangrento, é a de Lady Macbeth—o que aponta para um nome feminino. Há dois planos de acção: um activo, pela mão de Lady Macbeth, e um passivo, representado pelo próprio Macbeth. Elena Barbalich, na qualidade de encenadora, resolve esta dualidade, apresentando a peça como “o círculo do poder.” Embora não o faça por escrito, fá-lo por via da encenação, colocando novamente (desde 2007) um olho espelhado no centro da cena. Para as bruxas, é o “caldeirão”, obtendo um efeito curioso na primeira cena; para os Macbeth, é a mesa do poder na cena do banquete. O “círculo do poder” só desaparece à medida que a resistência escocesa se adensa para o grande final. Embora simples, o conceito da encenação de Barbalich não é necessariamente óbvio e nota-se falta de teatralidade ao subir do pano após a queima do castelo ou no manuseamento dos espelhos. Além disso, é bastante óbvio que alguns adereços foram mal pensados—como é exemplo óbvio a cadeira do Rei, que é torta e poderia ser transformada numa cena chave se fosse mais prática no acto III. Porém, se alguns aspectos não funcionam por serem demasiado baratos, há exemplos que funcionam muito bem, como a visão do fantasma durante o banquete.
O P.Z. pergunta-se qual terá sido o principal critério de escolha para a produção do Don Carlo há uns anos, e pôs a mesma pergunta em relação a esta Macbeth. Naturalmente, devido ao repertório de Elisabete Matos—o que é uma iniciativa louvável, tendo em conta o carinho com que o público recebe a cantora. Ninguém se lembrou, porém, de que por mais potentes que estas duas produções fossem—e esta Macbeth tem alguns momentos muito dramaticamente envolventes, como a segunda cena das bruxas—, estariam sempre na sombra das recentes transmissões em HD. Este texto é uma tarefa ingrata, visto que distingue o muito bom do sublime. Macbeth requer um barítono em total controlo sobre as suas capacidades dramáticas, com postura comandante como se esperaria de um rei ou de um Otelo, e isso está maioritariamente presente no retrato de Àngel Òdena. Nota-se que Òdena ainda tem caminho a trilhar pelo seu Macbeth (sobretudo a nível dramático) mas a sua voz tipicamente verdiana consegue servir bem os objectivos do programa. Muito agradaria ao P.Z. voltar a ouvir este barítono na Força do Destino ou no Baile de Máscaras.
A vantagem de se ter escolhido esta ópera—pondo de parte que não deixa de ter ficado na sombra da Netrebko—foi a própria Elisabete Matos. Lady Macbeth foi um dos seus sucessos recentes; apresenta-se agora com um retumbante sucesso, com o papel certamente mais amadurecido. Apesar de o P.Z. ser abertamente um admirador de Elisabete Matos, mantém algumas reservas que nem sempre exprime neste blog, sobretudo ao nível da estridência nas notas agudas. Esse e o vibrato foram os problemas no Don Carlo, e o P.Z. estava completamente pronto para lidar com o primeiro. Mas advinhe-se: não foi preciso! Ouviu-se precisão, técnica e dramatismo discretamente aliados pela experiência. A ária “vieni t’affretta” foi magistralmente interpretada, bem como a cena do sonambulismo.
A cena do banquete foi especialmente esperada pelo P.Z., visto que tinha sido apresentada no concerto comemorativo de 25 anos de careira de Elisabete Matos há algum tempo, com Juan Pons como Macbeth. Foi um bom regresso, repleto de referências ao dito “círculo do poder,” se bem que tenha pedido algo mais do Macbeth de Òdena. O fantasma do assassinado Banco surge com as mãos ensanguentadas, levando Macbeth à beira da colapso, agora que usa na cabeça a coroa afiada da Escócia. O Banco de Giacomo Prestia, embora não intervenha activamente na cena do banquete, esteve em excelente plano vocal, bem como o Malcolm de Marco Alves dos Santos. Mais uma vez, o último sugeriu ter capacidade de interpretar um grande papel do bel-canto, sem a vaidade de vários cantores que se fizeram ao aplauso.
A direcção musical de Domenico Longo esteve, porém, aquém do esperado. Os tempos empregados frequentemente soaram a ensaio e a orquestra poucas vezes cresceu à altura da intensidade dramática. Aos olhos do P.Z., este foi o principal defeito desta Macbeth. Estando Macbeth vencido e virando-se a profecia das bruxas a favor de Malcolm, este dirige-se para a coroa afiada que o espera: de novo, o círculo do poder não perdoa a “pátria oprimida”.
★★★★
Giacomo Puccini, 1924-2014
Contam-se amanhã 90 anos desde o desaparecimento de um dos mais respeitados compositores de sempre: Giacomo Puccini. No dia 29 de Novembro de 1924, Puccini deixaria Turandot incompleta devido a complicações pós-operação a um cancro na garganta. Dois anos mais tarde, quando se estreou a Turandot no Teatro alla Scala, o maestro Toscanini parou a música depois da morte de Liù e dirigiu-se à audiência: "aqui termina a ópera pela morte do autor." Outros dizem que foi mais poético, como "aqui, Puccini pousou a caneta."
As primeiras óperas do P.Z. foram de Verdi e Bizet; mas as que verdadeiramente acenderam aquela chama de melómano foram a Tosca e a Bohème. A celebração do P.Z. foi ontem, no Teatro Mariinsky, com O Tríptico (Il Tabarro, Suor Angelica e Gianni Schicchi); o impacto foi maravilhoso. Quais foram os melhores momentos que Puccini proporcionou aos leitores?
O suspense na ópera e em “Il Tabarro”
No século XIX, Wagner apresentou dramas musicais épicos com
um sentido próprio de um dito “suspense”. Restava prosseguir o trabalho do mestre,
juntando esse dito conceito a algo que a ópera conhece bem—o assassínio.
Debussy obteve um efeito interessante com Pelléas et Melisande, criando uma
aura de morte quase mórbida. Todavia, a preocupação com o suspense foi de tal
ordem, que Pelléas permanece no repertório como uma ópera imponentemente
nebulosa—outra maneira de dizer cavernosa e pouco acessível. À sua maneira
germânica, Richard Strauss também obtém efeitos de suspense impressionantes com
Salomé e Elektra. Ao contrário de Pelléas, que aparenta
caminhar para uma morte obscura, Salomé começa com o suicídio de
Narraboth, cujo corpo permanece parte da ópera em palco até Herodes notar. “Que
faz este homem aqui? Não mandei matá-lo. Não quero vê-lo aqui”, indaga Herodes,
misteriosamente atormentado por uma dantesca sensação auditiva de “um bater de
asas gigantescas.” Ao longo da ópera, à medida que o ambiente se adensa,
Herodes vai libertando a sua pressão, evidenciando a bolha de suspense que se
vem formando. Já perto do final, exclama “escondam a lua, escondam as estrelas!
Algo horrível vai acontecer!”, ouvindo-se de seguida o motivo (já em si
inquietante) de Salomé.
O repertório comum da ópera italiana raramente encontra este
tipo de ambiente. Puccini consegue algumas aproximações com a música do final
do acto II e o amanhecer na Tosca e, na Butterfly, com o dueto
das flores e o coro em boca fechada; mas não se tratam de construções
elaboradas ao longo de uma ópera inteira. Ainda no século XIX, houve algumas
tentativas por Verdi, com O Trovador (“Stride la vampa!”, “miserere”),
o Ernani ou A Força do Destino e outras obras que parecem
convergir para uma fatalidade. (Aliás, a propósito do Trovador, o PZ
ficou admirado com a última encenação em S. Carlos por causa da aura de
mistério que se desenvolvia a partir do acampamento dos ciganos.) Com a cena do
julgamento, a Aida também apresenta alguns momentos de suster a
respiração. Contudo, as obras de Verdi primam pelo seu lirismo mais do que pela
criação de suspense. Na verdade, nem na ópera italiana, nem na ópera em geral
existiu uma corrente “suspensionista”. A obra de Wagner cuida de profundas
discussões sobre a humanidade; Verdi procura o elo entre o bel canto e a
grand opéra; Debussy não deixou outras óperas além de Pelléas e Strauss
acabou por inflectir para uma via mais poética do que Salomé ou Elektra.
No Onegin de Tchaikovsky, a ária de Lensky anterior ao duelo (Kuda,
kuda…) transborda emoção e lirismo em vez de inquietação. Foi Puccini quem teve
de abrir caminho para encontrar o “amor, e amor violento” tão necessitado na
ópera.
Dificilmente se pode pensar na doença—o único mau na Bohème—como
“amor violento”; o expectador terá de se contentar com as referências nos
versos a um Rodolfo “colérico, lunático e cheio de preconceitos”. Mas o acto II
da Tosca e o suicídio da Butterfly por seppuku têm outra figura.
Em 1910, como aqui se celebrou, Puccini levou ao palco da antiga Metropolitan
Opera o Johnson de Caruso a ser enforcado no acto III, depois de levar um tiro
no acto anterior; Minnie empunha uma espingarda para salvar o seu bandido
amado. Nenhum compositor tinha sido tão ousado até à data. Houvera homicídios e
suicídios; duelos e veneno: mas nunca uma diva a saltar do Castelo de S.
Ângelo; nunca um seppuku japonês; nunca um enforcamento nem uma mulher
pronta para disparar sobre quem quiser tirar a vida ao seu amado. Como na Fanciulla
del West, nem mesmo Florestan e Leonor (Fidelio).
Existe uma raridade que, nos últimos meses, tem chamado a
atenção do P.Z. Trata-se provavelmente de um expoente do estilo; é uma ópera
simples, concisa e completamente absorvente. Em bom rigor, não se deveria
chamar ópera a Il Tabarro, visto que é apenas uma parte de 3 que compõem
O Tríptico de Puccini. Porém, nesta peça de 50 minutos, todos os
personagens parecem esconder alguma coisa. Que procura Luigi? Se está pronto
para espetar a navalha e sufocar Michele em sangue para ficar com Giorgetta,
porque não prefere ele simplesmente fugir com ela?
Há alguns meses, o “Ars Super Omnia” partilhou um artigo
muito interessante de Cambridge que discutia as hipóteses e o suspense no Lohengrin
de Wagner com a pergunta proibida (Frageverbot), aplicando teoria dos
jogos. (Perguntar, não perguntar; Lohengrin impostor versus salvador.) Tal como
no Lohengrin, a pergunta “que procura Luigi?” é função da intenção da
personagem. Nesta caso, “matar Michele?” versus “continuar a bordo?”. No final
do segundo dueto, Luigi afirma claramente num momento climático “sim, juro-te
que não tremo, espetar-lhe-ia esta faca e com o seu sangue faria uma joia para
ti!”, o que sugere intenção de matar o chefe. Matando, não faria sentido fugir,
visto que fugir não implica a morte de Michele; em contrapartida, a fuga seria
possível com Michele vivo e poderia ser realizada em Rouen. Não fica claro
porque pede Luigi ao chefe para o desembarcar em Rouen; a própria Giorgetta confirma
“diz-me porque lhe pediste que te desembarcasse em Rouen”. O desembarque em
Rouen poderia ter, portanto, dois desfechos: uma fuga conjunta com Giorgetta ou
uma tentativa de a deixar.
Mas, quando Michele lhe diz que é melhor continuar a bordo e
Luigi anui, se for sua intenção matar o outro, parece que a resposta a “quem é
Luigi?” se inclina para “um rapaz ganancioso em busca de trocar o posto com o
patrão”. Permanece, porém, a dúvida de Rouen, que dá relevância a esta análise.
De facto, há quatro cenários possíveis para Luigi: um ganancioso, um
conformista, um cínico e um psicopata.
Recapitulando, Luigi pode ficar a bordo ou sair em Rouen.
Apesar de pedir para ser desembarcado em Rouen, não é possível ter a certeza de
qual é a sua intenção, visto que pode ser apenas apressar Giorgetta a abandonar
“esta vida vagabunda” com ele e começar uma nova vida nos subúrbios de Paris.
Um momento climático da ópera ocorre quando Luigi afirma decididamente que está
pronto para assassinar Michele, seu empregador e marido da sua amante
Giorgetta. Abrem-se, assim, mais duas janelas: Luigi pode pretender, de facto,
matar, ou apenas atrair Giorgetta com a ilusão de que podem fugir sem serem
perseguidos. Ou até talvez largar o cadáver do outro e zarpar no barco pelo
Sena acima sem que ninguém os possa identificar, sendo o lucro não só uma nova
vida, mas também um sustento garantido com uma autonomia renovada. Cruzando-se
estes pares de possibilidades, abrem-se quatro janelas, que acabam sendo
tragicamente fechadas no final de Il Tabarro. Parece um filme de
Hitchcock, em que todos escondem qualquer coisa, a história vira-se e acaba por
ser o próprio Michele o assassino de Luigi, deixando incerteza total sobre a
personalidade de uma personagem principal.
Outra virtude desta ópera reside na música. Quando o pano
sobe, há uma descrição perfeita da oscilação das ondas do Sena e dos barcos que
vão passando. Durante alguns segundos, a atmosfera torna-se apaixonante, mas
imediatamente surge uma desenvoltura mais dramática—discutivelmente um encontro
de olhares entre Giorgetta e Michele—apontando para um amor proibido. Desde a
música de abertura, a partitura é sempre absorvente, apresentando-se em
sintonia com a acção e revelando algumas ironias (como o vendedor de canções
durante uma discussão matrimonial). O suspense vai sendo construído. Há uma
conversa de amigos que, apesar de referir apenas o amor pela vida nos subúrbios
em detrimento desta “vida vagabunda” num barco, deixa óbvio que subjaz uma
intenção amorosa, primorosamente suportada pela música. Aliás, a Frugola nota
ironicamente “ah, agora percebo, a vida é diferente a bordo”. Na produção da
Metropolitan Opera de 1991 (Domingo, Pons, Stratas), esta frase surge em tom
amigável, enquanto a produção de 1981 (Scotto, McNeil, Moldoveanu) usa este
momento como uma censura, demonstrando o espaço de manobra que esta ópera tem
dentro das incertezas que gera.
Quando a Frugola sai de cena, há um momento delicioso, um
vai-e-vem, cheio de hesitações entre Luigi e Giorgetta, sucedido pelo referido
dueto em que Luigi abre o jogo. Ao momento climático, segue-se uma resposta: a
origem do insucesso do casamento de Michele e Giorgetta. Parece ter havido um
tempo remoto (“tardes como estas”) em que tudo estava bem; depois, houve a
perda de um filho. Giorgetta diz que já não é a mesma e também Michele mudou, à
medida que o influxo musical da tenção de uma discussão matrimonial assenta no
vazio com a orquestra a reduzir-se ao cromatismo da paz da ondulação do Sena:
“é melhor não recordar…/ hoje é melancolia”…
“Todos malucos!”: aventuras na Metropolitan Opera
O P.Z. encontrou-se em NYC durante alguns dias de
Maio para as últimas récitas de Butterfly, Puritanos, Così Fan
Tutte e La Cenerentola—incluindo a que passou Live in HD na
Gulbenkian. Ir à Metropolitan Opera é uma experiência completamente diferente: pensamento
a fervilhar com a recente produção da Madama Butterfly, olho
arregalado na escola antiga com Os Puritanos, canto insuperável
na Cenerentola e uma mistura de bom gosto e tudo o que se gosta na ópera
em Così Fan Tutte. NYC já não está certamente nos tempos áureos de Caruso
ou Price, embora continue sendo um ponto de referência internacional. Não foi a
primeira incursão do P.Z. à Metropolitan Opera, mas foi a primeira oportunidade
de ver a maravilhosa e mítica cortina dourada—omnipresente no imaginário
operático de qualquer melómano—cujo potencial dramático e teatral as novas
produções têm menosprezado.
Por trás da cortina, o P.Z. encontrou uma encenação
encantadora, onde os puritanos eram mesmo puritanos e o castelo tinha
muralhas, torres, e um magnífico enquadramento gótico na parte superior da
cena, com um arranjo floral. O movimento cénico é contido: por vezes, parecia
haver mais na música do que a movimentação elegante mas algo ultrapassada; ainda
assim, esse mesmo aspecto dava destaque e espaço à música, constituindo uma
virtude que muitas encenações modernas não têm. Bellini transforma todos os
sentimentos em algo bonito (o próprio “mau” não é mau) e o cenário foi um
suporte inesquecível, devido a estar completamente em sintonia com a música:
tudo era elegante e bonito. Apesar de tudo, destes 4 espectáculos que o P.Z.
viu na Met, este foi o cenicamente mais satisfatório. Nesta produção estreada nos anos 70 por
Pavarotti e Sutherland, tudo estava como era suposto ser em primeiro lugar. Memórias
(leia-se, lendas) das récitas iniciais destes cenários obviamente convidam
comparações e a Met fez uma preparação curiosa ao anunciar o elenco, apresentando
a soprano Olga Peretyatko como uma nova heroína.
A Elvira de Peretyatko tem um timbre magnífico e
uma coloratura boa, que se alia à sua figura elegante e muito credível. O seu
par, Lawrence Brownlee, corresponde bem com um timbre agradável e vibrante com
algo que faz toda a diferença nesta ópera: as notas agudas prontas para “Credeasi
misera”. O elenco principal proporcionou uma experiência envolvente; no
último acto, o P.Z. nem sentiu necessidade de olhar para as legendas. Infelizmente,
os protagonistas tinham vozes com reduzido volume—o que se torna especialmente
conspícuo numa frente de cena tão ampla. Visto ao vivo, Marcus Kwiecien (Don
Giovanni, Onegin, Malatesta em HD) foi uma surpresa devido à presença em palco:
o barítono domina a cena. No acto II, transmite a dúvida de Ricardo de forma
humana e ressonante. Quando lhe é pedido que procure o perdão para o seu rival
Artur, “atira” um “não posso!” em tom de conflito moral. Com a insistência de
Giorgio, muda de postura, racionalizando que a sentença “foi a vontade do
Parlamento”. Foi uma cena que tinha de ser presenciada, com um “Suoni la
tompa, intrepido!” cheio de entrega e convicção. (Na primeira récita,
Kwiecien não fez o segundo acto, mas o P.Z. tinha obviamente uma récita
suplente!)
Das quatro óperas, o caso mais curioso em
termos de encenação foi a Madama Butterfly, que o FanáticoUm descreve
com grande entusiasmo nos Fanáticos da Ópera. Esta Butterfly conta com
vários efeitos cénicos empolgantes e completamente originais, como o
inesquecível dueto de amor do acto I, a cena final e um prólogo silencioso.
Contudo, há várias perguntas que ficam responder. Porquê o teatro bunraku em
vez do menino em carne e osso—seria o filho de Cio-Cio-San um instrumento de
Pinkerton? Então porque o leva ele para os Estados Unidos? E porquê tanta
movimentação de holofotes? As forças da Met estão preparadas para virtualmente
qualquer efeito luminoso sem ter os holofotes no meio do palco. O P.Z. ficou
com a impressão de que o objectivo desta Butterfly é progredir em
direcção a uma estética cinematográfica, como provam a utilização de biombos
deslizantes para introduzir e remover personagens do palco, a criação de uma
área virtualmente invisível no palco (com os ditos holofotes) e o próprio dueto
do acto I. Porém, estes elementos acabam por constituir cenas disjuntas com
efeitos excessivamente cinematográficos para serem apreciados em teatro com
naturalidade. Por outras palavras, a Butterfly de Anthony Minghella é o
oposto da teatralidade quase passiva e da elegância da encenação dos Puritanos.
O FanaticoUm encara esta abordagem de forma diferente, o que prova que toda
esta análise depende fortemente do espectador—do mesmo modo que, saudavelmente,
apresentamos diferentes apreciações da referida ópera de Bellini.
Hui He é uma das sopranos que se actualmente se especializa
na Cio-Cio-San a nível mundial. O P.Z. ficou com a impressão de que a interpretação
foi demasiado preocupada com a irrepreensível projecção vocal, causando algum
prejuízo à expressividade. No Teatre del Liceu, no verão passado, com Ermonela
Jaho, o segundo acto da Butterfly foi literalmente de arrancar lágrimas,
mas Hui He frequentemente se tornou excessivamente histriónica para conseguir o
efeito comovente do acto II. (O P.Z. nunca se vai esquecer da agonia de Jaho numa
frase fundamental da ópera: “Ah, m’ha scordata?!”, ou no dueto com o cônsul:
“Não é assim no meu país.”, “Que é qual?”, “Os Estados Unidos!”). A Suzuki de Maria
Zifchak esteve em excelente plano mas Hughes Jones é um tenor lírico que
interpretou Pinkerton, que apesar de ter um papel curto, é destinado a um spinto.
A comparar com a fabulosa Butterfy de Barcelona, que por curiosidade
apresentava também Hui He num elenco alternativo, esta foi claramente apenas
uma tentativa de drama.
Por outro lado, um espectáculo de excelência foi
repertório que não costuma atrair particularmente o P.Z. Foi a produção de Così
Fan Tutte, com as suas paisagens cuidadas e imenso respeito pelo libreto.
Ao contrário da produção veterana de Puritanos, cujos cenários também
são fidelíssimos ao texto mas deixam o estilo da acção cénica parado do tempo,
este Così tem actuação dinâmica e cativante, sempre pronta a extrair da
ópera de Mozart o sentido de humor mais moderno—mesmo no contexto do século
XVIII. O elenco, com a vibrante presença vocal do Ferrando de Matthew Polenzani
e a Despina de Danielle de Niese, foi de excelente nível. (Susanna Phillips
esteve curiosamente desaparecida!) O Don Alfonso de Maurizio Muraro, sustentado
por uma postura vocal comandante, foi também grande mais-valia para o
espectáculo, que já seria excelente se ficasse por aqui. Porém, foi também uma
noite lendária devido à presença do mítico maestro Levine, a extrair das forças
orquestrais da Met uma sonoridade mozartiana extraordinária, que se deve
certamente a uma longa e frutífera cooperação de décadas. Depois do Falstaff
de Dezembro, esta foi a segunda experiência de Levine para o P.Z., mas certamente
não menos inesquecível, mesmo não sendo Mozart “a praia” do P.Z.
“Praia” essa que também não é certamente La
Cenerentola de Rossini: outro espectáculo fascinante, com um elenco de
sonho ou, como corre por NYC, the Rossini dreamteam. Quem mais pode hoje
em dia fazer frente às acrobacias requeridas por Rossini do que Joyce DiDonato
e Juan Diego Flórez? Só se forem DiDonato e Flórez com Pietro Spagnoli, Luca
Pisaroni e Alessandro Corbelli! Não foi ocasião de encores—provavelmente
por ser uma transmissão em HD—mas aplausos estrondosos estiveram em lugar,
provavelmente amputados prematuramente no final do espectáculo por uma queda
prematura da cortina. Já confrontada (via YouTube) a récita real com a
gravação, constata-se amplificação excessiva a um nível quase não natural.
Na verdade, ao contrário do que a gravação sugere,
Flórez não tem uma voz excepcionalmente volumosa; antes são suas insuperáveis
virtudes as notas agudas vibrantemente potentes, o fraseado elegante e,
claramente, a sua voz encantadora e melodiosa. Parte da sua fama deve-se à sua
figura, que também é credível e os “Metropolitanos” nativos têm em elevada
consideração. DiDonato possui uma voz penetrante, com coloratura excepcional e
um respeito imenso pela música e pela musicalidade. A sua Cinderela
(Cenerentola) é sonhadora e dócil, em última análise encantadora e triunfante
com bom gosto. A cena final—o verdadeiro momento da ópera guardado para a
soprano—foi assinalável, sem porém cair no típico desprezo do restante elenco,
que para uma última intervenção aparece em peso com um nível imbatível.
Bom gosto não será, porventura, o termo mais
adequado para referir a cena final (nem o resto da encenação), desenvolvida
numa estética de proporções e cores quase surrealista. As próprias personagens apresentavam-se com uma maquilhagem exagerada, à qual escapam apenas Don Ramiro e Angelina—seriam eles as únicas personagens não estereotipadas? Tal como se assistiu
recentemente em S. Carlos encenando Donizetti, há uma perspectivação da
história como conto infantil, o que se torna—o P.Z. disse e volta a dizer—extremamente
redutor, visto que reduz a verossimilhança da ópera . O conceito desta
encenação torna-se quase inútil porque nunca conseguirá fazer La Cenerentola—a
ópera em si—ser tão cómica como o primeiro espectáculo que se encontra descendo
a Broadway; mas, por efeito colateral, consegue chegar muito próximo do
pindérico. Isto porque a Cenerentola é uma ópera e não um musical. O
fortíssimo Dandini de Spagnoli, discutivelmente a personagem mais
impulsionadora da comicidade da ópera, é prova suficiente de que a música e a actuação
em conformidade são suficientes para veicular a intenção da ópera sem
interpretações rebuscadas. Corbelli, como Don Magnifico também teve uma
prestação excelente e as “irmãs” estiveram em bom plano, por vezes com alguma
estridência compreensível nos seus papéis.
O P.Z. chegou cedo para a Cenerentola e
aproveitou para deambular pela loja da Met, onde estava um círculo de 5 pessoas
que discutiam o DVD que estava a passar. O P.Z. juntou-se imediatamente ao
grupo: e durante vinte minutos discutiram as diferenças entre Javier Camarena e
Flórez como Don Ramiro, o elenco de Puritanos (cuja última representação
seria nessa mesma noite), a estética da ópera de Zurique, as últimas apresentações
de Pavarotti na Met (que um casal tinha presenciado), o fanatismo de uma
senhora búlgara que fez de tradição ir a NYC uma vez por ano para ver os filhos
e outra para ver a Netrebko (e, dessa vez, tinha visto todos os espectáculos de
segunda a sábado); o Amfortas dominante de Peter Mattei, a corrente encenação
da Butterfly e a antiga Traviata; um senhor alemão que tinha
desistido do festival de Bayreuth, o teatro de S. Carlos e Elisabete Matos na
Met. A conversa correu durante mais de 20 minutos e já começava a aproximar-se a
“curtain time”. O primeiro a quebrar o círculo foi um nova-iorquino, que se despediu
e seguiu para o auditório. Não tinha saído há 10 segundos quando voltou atrás,
olhou para os outros, e acrescentou “and we’re all crazy!”: todos se riram e, à
medida que iam tomando os seus postos para o Live in HD, repetiam com
bom humor “e somos todos malucos!”. Cada uma com as suas virtudes, foram cinco
récitas inesquecíveis na Metropolitan Opera House, que introduziram o lema do
P.Z. e de todos os leitores que aqui chegaram: “somos todos malucos”!
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