Richard WAGNER, 1813-1883-2013



Celebra-se hoje o bicentenário do nascimento de Herr Wilhelm Richard Wagner. É imperativo fazer-se notar esta efeméride, porquanto a obra dramático-musical de Wagner constitui um colosso intemporal—sobretudo as suas sete últimas óperas. Wagner era um artista com um raciocínio e com uma criatividade brilhantes: um profundo investigador da condição humana. Independentemente das suas ideologias, qualquer espectador (minimamente preparado) reconhece o carácter humano e filosófico nas óperas de Wagner: o amor de Tristão e Isolda, a perícia em Os Mestres Cantores de Nuremberga, as dialéticas amor-poder no Ouro do Reno, amor-dever em A Valquíria, amor=liberdade em Siegfried, amor=redenção no Crepúsculo dos Deuses (cf. O Holandês Voador e Tannhäuser) e os dramas da vontade humana em Parsifal e Lohengrin.



Porém, pensando em Wagner, não deixam de surgir o espectro pré-nazi e as ideias anti-semíticas do compositor. Felizmente, quem explora a obra de Wagner compreende que a sua arte é muito maior e melhor do que Hitler alguma vez pensou: um verdadeiro tesouro da humanidade.


 

Fica, para terminar, uma pérola da “Canção de Lisboa”: “Estou a ver o cartaz de uma tourada!”, “Não é uma tourada. Isto é um Tannhäuser. É outra coisa!”
  

Crónica: "OSP e o Fado" vs São Carlos e o Fado




No próximo sábado, realizar-se-á na sala principal do Teatro Nacional de São Carlos um concerto de fados. Pisarão o palco—onde cantaram as mais seleccionadas vozes da arte lírica desde o século XVIII—Carminho, Mafalda Arnauth, Camané e Carlos do Carmo. Sem ter a certeza completa desta afirmação, o P.Z. ouviu dizer que a única noite de fados ocorrida em S. Carlos foi conduzida pela Amália, em tempos menos amargos para o teatro, quando havia pateadas só porque sim. Desde “O Morcego” de 2010, o P.Z. não assistiu a uma verdadeira pateada, embora até há bem poucos dias alguém tenha comentado por aqui que o Trovador pedia para “patear ferozmente”. A maior e mais recente, antes do referido “Morcego”, foi em plena “Salome”, quando Herodíade passava a ferro durante a “dança dos sete véus”. A questão recente é que o público está tão cansado, que nem energia para patear tem. Dizia alguém recentemente na blogosfera que até os aplausos estão cada vez mais cansados—o que é verdade.

Na primeira metade do ano, a ópera planeada em S. Carlos resumiu-se a uma espécie de festival de Verdi com duas produções muito controversas e um nível musical fraco. Nos blogs, há rumores de que Rui Massena pode ser o próximo director artístico do teatro (o-que-é-isto?!). No sábado, haverá um concerto de fados com a orquestra sinfónica portuguesa, acompanhando algumas das figuras mais mediáticas do Fado de hoje—um estilo mais turístico do que português, se apenas estes fadistas se considerarem. Mafalda Arnauth tem voz perfeita para fados, mas desde que lançou a sua carreira tem-se desviado do fado. Carminho, com a sua aura de jovem estrela de estúdio, raramente põe os pés numa casa de fados sem microfones; até aceitou cantar ao lado de José Carreras e Ailyn Pérez no nojento Pavilhão Atlântico, mas recusou acompanhar o “brindisi”, tal é o seu respeito pela pureza do fado (que pelos vistos não existe?!). Se Carlos do Carmo cantar sem microfone, o P.Z. acrescentará na sua descrição que, em tempos livres, é a carochinha. Quanto a Camané, basta indagar se tem postura para uma sala de ópera.

Amália foi a verdadeira fadista que ao povo pertencia e cuja arte era património da humanidade. O P.Z. não pode prever o futuro, mas o conceito do concerto em si é ofensivo! Quer a gestão da cultura transformar S. Carlos no Royal Albert Hall, onde passam todos: desde rap a ópera? Primeiro, seria mandatório garantir a qualidade da ópera; e depois poderia haver a lata de apresentar “fadistas de CD” e cinemas no teatro nacional de ópera. Fica um repto aos leitores-espectadores: não encorajem este tipo de iniciativas, recusando-se a ver o espectáculo deste sábado, porque indo, estarão a promover a criação do Coliseu dos Recreios de São Carlos em Lisboa. Muito provavelmente, os artistas referidos acabarão por ler este texto. Não devem vê-lo como um insulto: antes como um texto de um amante de ópera (e sim, também de noites de fado) muito entristecido. Para estes artistas (tal como para Rui Massena), actuar em S. Carlos é um convite único e, por isso, a não recusar. Percebam que o P.Z. pensa que não o deveriam aceitar por um motivo simbólico e não pessoal.

Opine: Concordo/Discordo. 



Edit: 17 maio 2013 https://fbcdn-sphotos-a-a.akamaihd.net/hphotos-ak-frc1/428443_10151604022052980_1323603112_n.jpg Vergonhoso!

Rigoletto | Teatro Nacional de São Carlos (crítica), Trilogia de Verdi III




À partida, pensando no Rigoletto, as ideias principais que vêm aos amantes de ópera são a imagem disforme do bobo, a ária do duque de Mântua (“La donna è mobile”) e a doçura de Gilda. Nesta trilogia de Verdi, parece explorar-se as diferentes possibilidades de triângulo amoroso: no Trovador, com um amor não correspondido; na Traviata, o falso triângulo (com o barão) e, no Rigoletto, a forma como o interesse do pai se interpõe entre Gilda e o duque. Nesta produção do Teatro de S. Carlos, apresenta-se um duque com dupla personalidade, uma Gilda com pouca personalidade e um Rigoletto não-disforme, atormentado pela sua própria personalidade. A voz de Piero Terranova é particularmente cavernosa—ainda que a sua audibilidade varie grandemente consoante a sua posição no palco—, ajudando a caracterização de um Rigoletto algo violento e pouco racionalista, agindo mais por impulso do que por meditação prévia. Ao contrário do típico corcunda triste que encontra na filha a personificação da amada falecida e se deixa ingenuamente tentar pelo poder sedutor do assassino Sparafucile, este Rigoletto é um bobo actualizado que esconde um desejo de poder; ao julgar ter o duque morto a seu comando, Rigoletto aponta uma lanterna para o público, no meio da tempestade do acto III, inebriado pela autoridade de ser ele o castigador do crime.

O duque de Mântua apresenta-se, nos primeiros actos, como uma socialite abastada. “Questa o quella” é cantada no meio de uma festa de máscaras, no meio da qual dificilmente há espaço para prestar atenção à música—não querendo isso dizer que o nível vocal tenha sido de interesse. A voz de Alessandro Liberatore é bonita mas forçada. E agudos?... nem arriscar! A casa de Sparafucile—das vozes masculinas, a mais poderosa, em conjunto com o Marullo de João Merino—passa para uma espécie de red-district, onde mais uma vez dá para prestar atenção a tudo (incluindo a dupla personalidade do duque, que agora se apresenta como motoqueiro), excepto à ária “La donna è mobile”. A Madalena de Agostina Smimmero não foi, visualmente, uma boa aposta para a sedutora irmã do assassino, o que se tentou colmatar com um quarteto “Bella figlia dell’amore” muito inconvencional, revelando um total desprezo do encenador Francesco Esposito pelo poder da música, resultando em alguns minutos que certamente fizeram Verdi revirar-se na sepultura. Esposito ainda tentou fazer das suas no princípio do “Caro nome” da Gilda, no final do acto I (num bairro onde toda a gente poderia encontrar a filha que Rigoletto quer esconder). Porém, deve ter-se apercebido de que não é possível ter mais do que Gilda e Gilda no palco durante esta ária incontornável do bel-canto. Romina Casucci possuiu uma voz transparente que se torna pouco agradável no registo agudo: o chamado adeus-boa-noite para uma Gilda.

Quando se prepara para lançar ao rio o cadáver que Sparafucile lhe dá, Rigoletto ouve o duque a entoar a sua canção alegre e logo descobre a sua filha mortalmente ferida. No dueto final, o P.Z. nunca sentiu tanta desonestidade ao ouvir o bobo pedindo à filha que não o deixe só (“no, lasciarmi non dei”), visto que, à luz desta encenação, só se consegue ver que Rigoletto tinha mais medo de se ver só no mundo do que tristeza por perder a sua filha. Apenas consegue exclamar “Ah, a maldição!”, não percebendo que foi a sua necessidade de controlo que conduziu ao desfecho trágico, preparado desde que zombou de Monterone. Esse e as outras personagens principais regressam ao palco durante a morte de Gilda, a que o Duque assiste de braços cruzados, condenando Rigoletto.

Esta crítica pode parecer simpática, mas infelizmente apenas tenta não focar os inúmeros pontos negativos e preencher alguns espaços que este Rigoletto pode ter deixado mal preenchidos. Porque, na verdade, o P.Z. resumiria a récita a um conjunto de cobardes que evitaram todas as notas agudas possíveis, um maestro completamente fora do conceito de drama, uma encenação pouco clara e incoerente, com um Rigoletto que anda de moto (WTF…) e, pela roupa, só lembra o Slash dos Guns n’ Roses, não merecendo nenhuma da piedade que pede na ária “Cortigiani, vil razza”—outra cenicamente arruinada.

★★☆☆☆, direcção cénica muito incompleta


O P.Z. ao descobrir que o Rigoletto anda de moto e parece o Slash (kit-maravilha):

 

La Traviata | Teatro Nacional de São Carlos (crítica), Trilogia de Verdi II

"Sempre libera!"

A música inconfundível de La Traviata ocupa um dos lugares mais acarinhados do repertório lírico e é uma das mais representadas. Porém, é uma peça exigente, que requer intérpretes e encenação arrojados para fazer uma Violetta provocadora e atractiva, um Alfredo comovente e um “papá Germont” implacável, de modo a corresponder ao nível da música. Nesta Traviata, protagonizada por Daniela Schillaci, encontra-se uma Violeta apaixonada, com uma belíssima voz, figura elegante e alguns malabarismos vocais bonitos. A ária “Sempre libera” foi interpretada nesses termos, mas deixou a nota aguda final para outra ocasião. No inconfundível “brindisi” do acto I, enquanto Alfredo propõe o brinde, Violeta dança provocadoramente com o barão—esse último de postura tradicional e severa—quase convidando Alfredo a aproximar-se. Este regressa ao palco no final do acto para reivindicar o amor de Violeta. 

As investidas de Germont, por seu lado, vieram de Damián del Castillo, um barítono sem brilho vocal, que calmamente, de perna cruzada, bem acomodado numa cadeira de jardim, não demonstra qualquer compaixão pela “traviata”; de uma forma tal, que é maior a indiferença do que qualquer outra sensação. Pessoalmente, o P.Z. encontrou uma cena completamente desinteressante no momento da ópera que mais o costuma comover, apesar de Schillaci ter transmitido a angústia de Violetta, condenada a morrer sozinha. Quando inicialmente vê a cortesã, Germont apenas sente desinteresse (desprezo, poderia discutir-se?). Violetta aceita deixar Alfredo dada a argumentação do papá Germont, que apenas sente compaixão pela “traviata” quando ela chora—“chora? Chora, a infeliz?”, observa ele. Mas como poderá Germont ter passado esse momento imóvel, sentado no outro lado do palco?

Na Traviata, apesar da presença frequente de coros diversos, observa-se a verdadeira solidão da cortesã parisiense: todos os seus faustosos companheiros—até a vida—a abandonam. De forma irónica e inteligente, Francesco Esposito garante a presença de figurantes no palco, no que parecem camarotes de teatro; e no fundo a vida de Violeta Valéry era apenas um teatro de luxo. No fim do acto II, esses camarotes (feitos de módulos que servirão de cenário à trilogia Trovador-Traviata-Rigoletto) acabam por se tornar estáticos e perdem completamente o interesse, até à cena final em que nem camarotes a Traviata tem, culminando num final vazio mas com um efeito visual potente. É de notar a ausência da progressividade da doença nesta encenação, o que é uma falha grave.

O Alfredo de Andrés Veramendi foi inconsistente: não tem registo grave decente, mas não perde a oportunidade para se exibir nas notas agudas. A partir do acto II, manteve um Alfredo com uma postura infantil exacerbada pelo exibicionismo do registo agudo. Em “Parigi, o cara”, a sua mezza-voce também não mereceu palmas. Após a arruinada ária “Di Provenza” do papá Germont (que supostamente dá a entender que Germont não é cruel como quando recusa o abraço que Violeta lhe pede no acto II), o pano desce de forma pindérica. Quando sobe, apresenta a casa de Flora, com uma mesa de jogo de grandes dimensões—onde Alfredo e o Barão decidem bater-se em duelo. Na cena final, Schillaci foi muito comovente no “Addio bel passato”, cantado debaixo de um vasto dossel. Se no Trovador restavam dúvidas quanto ao maestro Martin André, no finale, desde o dueto, a orquestra não produziu som comovente, mas fez antes uma leitura imprecisa da partitura de Verdi. A Violetta foi uma escolha bem equilibrada, mas esta Traviata deixa vários números de sensação acabar em silêncio da audiência.

★★★☆☆, protagonizado por intérprete superior.