Pérolas no YouTube | "L'Italiana in Algeri" em S. Carlos, 1988
L'Italiana in Algeri no Teatro Nacional de São Carlos, em 1988, com William Matteuzzi, Simone Alaimo, Elvira Ferreira, Manuela Castani, Manuela Santos, J. Vaz de Carvalho e José Fardilha. Rossini à antiga, do melhor que há! A encenação é um bocadinho parada, mas continua muito cativante e a parte final é muito engraçada. Está no YouTube uma versão com cenário semelhante (mais pormenrizado) e com mais movimento, mas a versão de S. Carlos é vocalmente superior! Quem viu e como foi?
Un Ballo in Maschera | Met Live in HD (via Gulbenkian)
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| Acto I do Baile de Máscaras. (Fot. Ken Howard/Met Opera) |
Un Ballo in Maschera foi, em tempos, uma das grandes produções da
Metropolitan Opera: cenários de grand
opéra, personagens carismáticos e grande alarido entre a audiência. Nesses
tempos, não se ouviria ninguém dizer “vou sair antes do final porque estou
aborrecido”, como ainda hoje aconteceu entre a assistência desta menos
relevante obra de Verdi. Pavarotti conquistava, chegava e arrasava—por essa
ordem; a encenação era simplesmente deslumbrante, e o espectáculo estava feito. Na nova produção, pouco mais
se pode dizer do que Hvorostovsky, o novo “menino bonito” da Met Opera (assim
se escreve no YouTube), alcançou as expectativas que em seu torno se tem gerado.
Indubitavelmente,
uma das razões que condenou esta ópera a um estatuto menor entre o repertório
principal é a sua dispersão temática, visto que a distinção entre o drama
principal e as pequenas gracinhas não está bem definida e a música raramente é
inovadora, destacando-se apenas a marcante ária de Renato: “Eri tu”. A nível de luz, a nova
abordagem deste Baile de Máscaras
trata-se de uma interpretação sombria e vazia, com pouco movimento, o que facilita uma melhor concentração no drama em si. Já a nível de movimentação
cénica, a situação é diferente, sem qualquer direcção
aparente. Várias ideias ocorrem ao P.Z. para explicar as asas do pajem no
prelúdio—a falsa aparência da corte de Gustavo III, a desonestidade, a falta de
liberdade—mas todas essas hipóteses parecem impertinentes! A cena final do
baile é a mais iluminada. Talvez a alma iluminada do encenador tenha
interpretado a morte do rei como um momento de luz; mas não terá sido uma morte
em pé algo demasiado insensível?
Sondra
Radvanovsky detém um timbre elegante e potentíssimo mas pouco maleável. Embora
produza pianissimi e algumas nuances encantadoras, nunca deixa de
estar dentro da mesma linha vocal, da mesma amplitude de vibrato—curioso exemplo de uma voz extraordinária antagonizada pela própria
técnica vocal. A direcção cénica e cinematográfica também não é muito
inteligente acerca da forma como lida com esta Amélia, pelo menos no que
concerne à transmissão em HD: aproximações excessivas da câmara e guarda-roupa
que não favorecem os atributos físicos da cantora não ajudam a criar empatia nem
credibilidade junto ao público.
O facto de se
tratar de uma transmissão e não de uma assistência ao vivo também levou o P.Z.
a duvidar da prestação do tenor Marcelo Álvarez como Gustavo III, cujo pontual
excesso de trejeitos físicos pareceram, por vezes, ser uma forma de colmatar dificuldades
de expressão vocal. Mais uma vez se repete: ter estado presencialmente na
Metropolitan Opera teria sido, sem dúvida, melhor; resta saber até que ponto.
Para o P.Z., daquelas a que assistiu, esta foi a transmissão Met Live in HD menos estimulante. (Quiçá
por ter em conta demasiado elevada o DVD da produção dos anos 80’?) Mas poucas
dúvidas há, neste momento, de que esta encenação é mais promessa do que matéria.
★★★★☆
Thaïs | Teatro Nacional de S. Carlos (críticas dos leitores)
Tal como aconteceu com a estreia da ópera portuguesa Banskers, o P.Z. encontra-se em dilema acerca de assistir à Thaïs em versão de concerto do Teatro de S. Carlos. Dessa vez, os leitores mostraram, por meio da votação, que o espectáculo até foi bom. De novo, o elenco não parece prometedor e tão-pouco a "versão de concerto" é uma perspectiva atractiva.
O primeiro contacto do P.Z. com a Thaïs de Massenet foi há dois anos, depois da recomendação do Dissoluto Punito. Adquiriu-se o DVD; a cenografia da Metropolitan Opera era grandiosa, tal como pede o estilo de Massenet; a música parecia "explorar os limites da lírica", escrevia alguém, mas o segredo, em Thaïs, é pensar na sonoridade e apreciar momentos de grande sensibilidade da orquestração exótica, como a entrada da protagonista, ou os números de sensação: a ária do espelho ("Dis-moi que je suis belle") e a "Meditação". Só depois de ler essa recomendação voltou o P.Z. a ouvir a ópera e começou a compreendê-la melhor.
Porém, tal como foi discutido no blog do Dissoluto, nada na Thaïs—nem a música—se assemelharia ao nível da Metropolitan Opera se estivesse em más mãos: eis o medo do P.Z. A versão de concerto da Cavalleria Rusticana, em S. Carlos, foi a pior experiência operática do P.Z. Tratando-se essa de uma ópera bem mais acessível, quais são os riscos desta Thaïs?! Por favor, destemidos leitores, votem e comentem rápido!!
★★★★★ - um espectáculo muito bom e estimulante, perfeitamente disfrutável.
★★★★☆ - bom espectáculo, mas com algumas falhas desagradáveis.
★★★☆☆ - minimamente interessante mas de qualidade bastante duvidosa.
★★☆☆☆ - espectáculo que não chega a ser interessante, talvez desagradável.
★☆☆☆☆ - mau espectáculo; perda de tempo não recomendável.
Pede-se a quem votar nas sondagens no fim das críticas que tenha em conta estes critérios, evitando que a opiniões semelhantes correspondam votações diferentes.
O primeiro contacto do P.Z. com a Thaïs de Massenet foi há dois anos, depois da recomendação do Dissoluto Punito. Adquiriu-se o DVD; a cenografia da Metropolitan Opera era grandiosa, tal como pede o estilo de Massenet; a música parecia "explorar os limites da lírica", escrevia alguém, mas o segredo, em Thaïs, é pensar na sonoridade e apreciar momentos de grande sensibilidade da orquestração exótica, como a entrada da protagonista, ou os números de sensação: a ária do espelho ("Dis-moi que je suis belle") e a "Meditação". Só depois de ler essa recomendação voltou o P.Z. a ouvir a ópera e começou a compreendê-la melhor.
Porém, tal como foi discutido no blog do Dissoluto, nada na Thaïs—nem a música—se assemelharia ao nível da Metropolitan Opera se estivesse em más mãos: eis o medo do P.Z. A versão de concerto da Cavalleria Rusticana, em S. Carlos, foi a pior experiência operática do P.Z. Tratando-se essa de uma ópera bem mais acessível, quais são os riscos desta Thaïs?! Por favor, destemidos leitores, votem e comentem rápido!!
★★★★★ - um espectáculo muito bom e estimulante, perfeitamente disfrutável.
★★★★☆ - bom espectáculo, mas com algumas falhas desagradáveis.
★★★☆☆ - minimamente interessante mas de qualidade bastante duvidosa.
★★☆☆☆ - espectáculo que não chega a ser interessante, talvez desagradável.
★☆☆☆☆ - mau espectáculo; perda de tempo não recomendável.
Pede-se a quem votar nas sondagens no fim das críticas que tenha em conta estes critérios, evitando que a opiniões semelhantes correspondam votações diferentes.
Don Pasquale | Teatro Nacional de São Carlos (crítica)
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| Fardilha, Yanissis, Melo, Vidal e coro. |
No tom simples e bem-disposto de Don Pasquale, Donizetti recorre a um vasto leque de recursos artísticos
para expor uma diversidade de sentimentos e circunstâncias irónicas. O
resultado é uma ópera dinâmica de fácil compreensão, mas com pouca
profundidade intelectual e—diria o P.Z.—pouco estimulante. Todavia, o talento melódico
de Donizetti é inegável, pelo que o pulsar enérgico da orquestra e dos cantores
proporciona, em última análise, um encantador espectáculo de melodias e sons.
Toda a cenografia envolvente na produção do Teatro de S. Carlos transforma esse
gracioso aglomerado sonoro num espectáculo de sons e cores, variando em função
do sentimento predominante em cada cena. Os cenários e a encenação são vivos e
dinâmicos, cativando o espectador desde o prelúdio.
A fábrica de tecidos finos do velho Don Pasquale, algures
nos anos 1930’, é o contexto da reposição da história. Don Pasquale é um
abastado proprietário industrial que, embora satisfeito com a sua riqueza, se
sente em necessidade de se reafirmar ante si e o seu sobrinho Ernesto. O enredo
tipicamente buffo, envolvendo personagens trocadas e jogos de enganos, toma
um significado curioso no contexto da fábrica de Pasquale. Estes enganos, engenhados
por Malatesta, constroem uma tese moral em relação ao capitalismo, visto
que Pasquale é o capitalista do negócio e da vida, devido à sua personalidade
liberal mas impositiva. (Ou pelo menos assim tenta o P.Z. extrair uma leitura
da encenação.)
A própria postura de Yanni Yanissis, como Malatesta, foi
mais paternalista do que cómica, portando em si uma atitude reconhecível como a
de agente moralizador. Mathias Vidal, tenor de voz cristalina e fluida,
interpretou um Ernesto de sentimentos intensos e apaixonados. No acto II, após um
melancólico solo de trompete (a verdadeira inspiração para a valsa de O Padrinho?),
a ária foi comovente, bem apoiada pela encenação quase cinematográfica; no acto
III, o número principal “Com’è gentil” foi encantador. Não menos digna de
louvor foi a Norina de Eduarda Melo, personagem enérgica e, quando quer,
impetuosa. A soprano, ainda em início de carreira, tem uma voz ágil e um
timbre doce, dominando as coloraturas que Norina exige. A sua apresentação foi
bem clara: Norina sabe bem o que quer e como fazer para atingir os seus objectivos.
Todo o resto da ópera é ironia à luz desse conceito: Eduarda Melo soube bem
chegar ao espectador, revelando uma notável progressão na personalidade de “Sofronia”.
José Fardilha revelou bem o entusiasmo do vaidoso Don
Pasquale e o arrependimento que o seguiu, valendo-se da sua potente voz—por
natureza, excelente para o papel—para tomar a posição central da história. Este Don Pasquale foi, sem dúvida, um espectáculo bem cantado e representado,
fundindo a felicidade com a tristeza por via da ópera, “transformando
indignação em riso”; riso esse que o P.Z. teve a felicidade de trazer, desta
vez, de S. Carlos. O que faltou? Alguma pimenta.
★★★★☆, entretenimento de qualidade!
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