Miriam Gauci protagoniza Suor Angelica no Teatro Nacional de São Carlos, em 1997. No YouTube, está também disponível a ária "Senza mamma" da mesma produção. Ambas as gravações são terrivelmente viciantes, primorosamente apoiadas por uma magnífica cantora e uma encenação aparentemente suave e psicologicamente interpretativa, permitindo atingir--mesmo apenas através destes dois excertos--a essência desta ópera de enorme sensibilidade. Quem viu e como foi?
La Rondine | Teatro Nacional de São Carlos (crítica)
Puccini é o compositor do amor violento, do profundo mar de sentimentos e das grandes heroínas, salvo numa excepção. Ao assistir a La Rondine ("A Andorinha"), é sugestão imediata a ligeireza da acção, mais do que da música em si. Não há violência, força, faca ou alguidar; nem o amor é omnipresente. O drama não é muito intenso, confiando-se apenas em dois números de sensação, algumas amostras de valsas, um coro exemplar e a aveludada orquestração tão marcante de Puccini. No fundo, La Rondine é a ópera de "deixa-me sonhar", tal como diz Magda ao seu amado Ruggero no acto II. A cargo de José Miguel Esandi, a orquestra sinfónica portuguesa produziu um som belíssimo, profundamente inspirado pela fantasia amorosa dos dois amantes; a sonoridade inundou cada canto da sala, e por momentos -- sobretudo no acto II --, pôde-se sonhar, esquecendo o dinheiro que custa a ganhar ou os olhos da sociedade sempre presentes nos cenários. As vozes solistas não eram brilhates, mas a orquestra proporcionou um quarteto "Bevo al tuo fresco sorriso" deliciosamente envolvente, também acompanhado pelo coro do teatro em perfeita melodia.
A encenação de Nicola Raab situa a acção em 1912, recorrendo a vários mecanismos dinamizadores que oscilam entre a ligeireza da comédia e a fantasia amorosa da ópera. Os figurinos não são inteiramente satisfatórios em termos estéticos nem históricos. Na casa de Rambaldo, antes de Magda o deixar, há uma abundância global, conquanto algo kitsch, que se adapta ao café Bullier do acto II, onde Magda encontra a sua fantasia de amor. Já no acto final, em que a fatalidade do destino da andorinha que fugira do ninho é o regresso de Magda para Rambaldo, o cenário é simples, com vista para o mar: peças de mobília estão suspensas no ar, tal como as fantasias insustentáveis do amor de Ruggero e Magda -- a última, uma sofisticada dama que o velho Rambaldo sustinha até ao aparecimento de Ruggero.
Dora Rodrigues apresentou uma Magda sonhadora, mas nunca muito envolvida. Embora audível, não demonstrou sensibilidade para revelar suavemente a progressividade dos seus sentimentos: tudo foi brusco, desde o primeiro olhar até ao amor, do amor ao drama, enquanto no acto II, no café Bullier, a encenação sugeria um prolongamento temporal da acção por um espaço de meses. Na versão amputada pelo próprio Puccini (decorrente da inexplicável insatisfação do público), sem a ária "Parigi è la città dei desideri" com que se apresentaria Ruggero no acto I, não chega a ser implantada no público a mesma compaixão que se tem pelo Rodolfo ou pelo Calaf. Em parte, o Ruggero de Mário João Alves também não foi muito cativante por essa razão, acrescentada à clara insuficiência de projecção vocal do tenor.
Carla Caramujo e Marco Alves dos Santos formaram a dupla amorosa da amigável criada de Magda e do poeta Prunier, evidenciando essa centralidade secundária da ópera -- influência da operetta que em Viena se julgava que Puccini estava compondo antes de 1917. La Rondine foi composta por Puccini na quietude bucólica de Torre del Lago, durante a Grande Guerra. O compositor -- que não pegara nas armas sem ser para caçar patos -- não conseguiu nesses dias obter a aprovação total do público para uma ópera algo tragicómica num clima de guerra. O século e o milénio mudaram e, nos tempos difíceis que Portugal atravessa, é dada ao público, em S. Carlos, a experiência de descontrair e sonhar como a "andorinha" que, após apaixonada fantasia, tornou, enfim, ao ninho (ao contrário do desaparecido público de S. Carlos).
★★★☆☆, com gloriosa direcção musical
La Traviata | Met Live in HD
Desde a sua estreia em 2006, em Salzburgo, a produção de La Traviata concebida por Willy Decker tem sido alvo de crítica a nível internacional. Muitos aficionados consideraram imediatamente a obra de Decker o pico operático do ano, enquanto observadores mais conservadores vaiaram prontamente a encenação inovadora. O próprio Plácido Zacarias partilhou essa atitude céptica antes de ver a produção completa, mas acabou regressando da transmissão em diferido absolutamente arrebatado por uma produção inteligentemente pensada, esteticamente delicada e profundamente marcante.
A música de Verdi -- cuja sonoridade é tão familiar -- encontra, sob a batuta do (super-)maestro Fabio Luisi, um equilíbrio delicioso entre o propósito meramente lúdico e a dimensão dramática da ópera, exacerbada pela encenação inconvencional. A encenação foi inteiramente modelada em função da música, com perfeita sincronia. No prelúdio ao acto I, Decker põe as cartas na mesa: um grande mostrador de relógio encontra-se à esquerda, no palco, com um homem de figura austera ao lado. Chega Violetta, com o seu vestido vermelho. Eis os três primeiros símbolos: o tempo que passa, a doença que acompanha a cortesã parisiense e os dias de prazer de Violetta.
Matthew Polenzani interpretou Alfredo, retratando o apaixonado amante de Violetta inicialmente como orgulhoso e inexperiente, progressivamente mostrando-o como vítima das circunstâncias. O timbre da sua voz tem uma claridade vibrante e natural, espelhando um Alfredo íntegro e jovem, o que não quer dizer menos capaz de se envolver numa cena infantil e violenta, como a do final do acto II, em que empurra Violetta para o relógio e lhe atira o seu dinheiro, enquanto os convidados da festa assistem. Dimitri Hvorostovsky sugeriu um pai Germont impositivo, provavelmente menos complacente do que a própria música parece indicar. Quando Violetta lhe diz que Alfredo é para ela mais do que tudo, Germont literalmente ri: e, ao longo do comovente dueto do acto II, não se assiste a mais do que uma pequena alteração de humor no carácter do velho orgulhoso, assim posto a ser julgado pelo público. Progressivamente durante o seu discurso para Violetta, assiste-se à perda de cor das flores que adornam o fundo da cena, enquanto Natalie Dessay, como Violetta, vai arrancando os panos floridos dos sofás que adornam o palco, assim despindo o cenário do padrão colorido que remetia para a felicidade dos dois amantes. No ponto de viragem da ópera, Dessay profere lindamente as delicadas palavras "dizei a vossa filha, tão bela e pura / .... que por ela me sacrifiquei -- e morrerei", destapando o fatal relógio que se encontrava parcialmente ocultado pelo pano florido. Violetta pede a Germont que a abrace como se fosse sua filha, mas este permanece imóvel.
A Violetta de Dessay, infelizmente, não fez muito mais do que cantar lindamente; em vez de apresentar uma introspecção de Violetta (imensamente pedida pela progressiva sequência de árias do acto I), tomou o caminho do bel-canto, procurando que a música fosse auto-produtiva. Embora a partitura seja bela por si só, a música excede a perfeição técnica e carece de uma interpretação pessoal, o que é dificilmente substituível por uma inteligente encenação à qual se subordinam os cantores. No final, Germont demonstra compaixão, dando a Violetta o abraço que esta lhe pedira no acto II; mas "é tarde". A mesma figura fantasmagórica dos prelúdios -- que entretanto revela ser, denotativamente, o Doutor Grenvil --, após afastar a cortesã da vida, é aceite pelos braços de Violetta, que assim sucumbe à doença. Mesmo assim, a encenação foi, em última análise, a salvação da heroína. As encenações tradicionais podem regalar os olhos, mas esta, contando que seja compreendida pelo público, pode elevar-se a um nível de intensidade dramática invulgar.
"Onde está o Maestro?" (Resolvido)
Quem consegue encontrar uma fotografia de Toscanini na capa deste CD? E mais alguns artistas relacionados com ópera, talvez?
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| Aqui está ele! |
O P.Z. aproveita para recomendar este disco de jazzy tunes aos interessados. Trata-se de uma excelente prova de que o jazz é um género musical diverso, aberto a novas experiências e vozes. Neste disco, reúnem-se 17 das vozes mais conhecidas da actualidade dos mundos pop, rock, R&B e soul, entre outros, confrontando-se cada uma num dueto com Tony Bennett. Conquanto a primeira audição possa ser um deleite, repetições poderão tornar-se monótonas, dada a familiaridade da excelência que, logo na primeira audição, prende o auditor desde o princípio ao fim das 17 faixas. Maioritariamente canções compostas nos tempos do princípio da carreira de Tony Bennett nos anos 40 e 50, este registo moderno é um raro e verdadeiro reviver dos good old days. (★★★★)
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