Foi na sequência da última produção da opereta "O Morcego", em S. Carlos, que um certo anónimo decidiu -- embora terrivelmente amador -- procurar críticas de ópera.
A primeira que encontrou, exactamente há dois anos e dois dias, relativa ao espectáculo em questão, era do recentemente aparecido blog "Fanáticos da Ópera". As apreciações desse anónimo e as dos "Fanáticos" divergiam consideravelmente, pelo que o anónimo redigiu uma resposta e a enviou anonimamente aos "Fanáticos". Dois dias depois, o anónimo decidiu criar um blog, que poderia ser utilizado como meio de diversão e de oficina literária experimental. Republicou o comentário que escrevera aos "Fanáticos" e, tal como agora, o texto foi assinado por Plácido Zacarias (PZ).
Esse blog, como se deduz, é este: Ópera & Música Clássica em Lisboa. Ao longo de dois anos, a escrita do PZ foi evoluindo e alterando o seu estilo, oscilando entre o exagerado, o desagradável, o mal escrito, o bem escrito, o interessante e o fait-divers. Mais tarde, o PZ decidiu eliminar os posts iniciais, desse modo apagando alguns textos experimentais menos reflectidos.
O Ópera Lisboa ficou sem uma introdução (exceptuando aquela que o Ópera e Demais Interesses simpaticamente lhe fez, no princípio), pelo que se segue uma introdução à próxima temporada do blog:
Em Portugal e em Lisboa, atravessam-se tempos difíceis, de severas contracções orçamentais. A ópera é uma arte do espectáculo maravilhosa, conquanto dispendiosa e dependente de financiamento do Estado. Muitos consideram a ópera uma forma de espectáculo demasiado extravagante para ser uma verdadeira forma de arte, enquanto outros adoram a sua "magia" única e vêm nela uma fonte de renovação ou rejuvenescimento espiritual. Este blog parte do princípio de que a ópera é uma espécie de fenómeno social (manifestação de cultura) e, como tal, apenas será verdadeiramente cumprida se revelar coesão, cooperação e coordenação; espectáculos reveladores de grandes heterogeneidades vocais, de orquestras desorganizadas ou de encenações confusas serão alvo de críticas negativas no Ópera Lisboa, porquanto não permitirão ao espectador beber a essência da pureza da fonte da Arte e da Música.
E qual é a a melhor condição para formar uma opinião imparcial do que o amadorismo? Tentando desenvolver textos variados e cativantes, o PZ tentará combater a monotonia literária e a crítica do género do Público, que não passa de falsa publicidade. O principal compromisso do blog para com o leitor será o de informar e aconselhar o público indeciso e curioso, ao mesmo tempo que proporciona textos interessantes -- quer sejam críticas de espectáculos ou textos disjuntos. Pede-se apenas ao leitor que deixe a sua marca nos comentários (via Blogger ou Facebook) ou nas votações, de modo a enriquecer o conteúdo do blog em termos de opiniões e de ideias... e também para incentivar o PZ.
Numa iniciativa inédita, o Ópera para Principiantes alia-se ao blogÓpera & Música Clássica em Lisboa num frente a frente pela defesa da melhor adaptação à ópera da história do Abade Prévost, Manon Lescaut. Qual a melhor e mais completa adaptação: a de Puccini ou a de Massenet? O
amigo Plácido Zacarias parece não ter dúvidas: a de Puccini é sem
sombra de dúvidas a melhor. Mas a minha pergunta é simples: Será mesmo? Para mim, a resposta sai muito prontamente: Não! Antes de mais,
alerto para a extensão deste post, que é de aproximadamente 5 páginas
A4, mas contar tudo isto em poucas palavras parece-me inconcebível. Este
post contém também spoilers para aqueles que não conhecem as respectivas óperas. Um pouco de história Em 1731, o Abade Prévost escreveu o romance “L’Histoire du Chevalier des Grieux et de Manon Lescaut”,
o qual, devido ao seu conteúdo "escandaloso", foi de imediato proibido
de ser comercializado. Mas, tal como acontece com tudo o que é proibido e
que põe em causa a nossa virtude moral, depressa se tornou um sucesso.
100 anos depois era adaptada ao Ballet por Halévy (o homem que compôs a
ópera "La Juive" e que era parente de Bizet) e à ópera por Daniel
Auber em 1856. Será, no entanto, Massenet, em 1884, o primeiro tipo que
colocará a história de Manon para sempre nos palcos da lírica. Poucos
anos depois, um tipo italiano, com a mania do romantismo e dramatismo
exacerbados, ainda praticamente desconhecido no panorama musical, decide
fazer frente a Massenet e compor uma versão italiana da mesma história.
Massenet, sentindo-se incomodado (ou ameaçado? Conheceria já o
potencial do homem que lhe fazia frente?) acusa-o de plágio. Quando o
processo chega ao fim, decide-se que a obra de Massenet se chame “Manon” e que a de Puccini se chame “Manon Lescaut”. Verdade seja dita, os libretos pouco coincidem, para não mencionar a distância entre os estilos de composição.
As diferenças estilísticas Quando
colocadas lado a lado, percebemos logo as diferenças entre as duas
versões. São tão distantes como a ópera francesa o é da italiana.
Puccini segue o derradeiro movimento operático italiano: o verismo. Se,
por um lado, Puccini abraçava a passos largos o dramalhão de faca e
alguidar, Massenet, por outro, era o último representante de toda uma
tradição musical francesa e, de algum modo, o precursor, através dos
seus estudantes, de novos géneros musicais, entre os quais o naturalismo
– cujo melhor exemplo é a ópera “Louise” de Charpentier. Em
Massenet vemos toda a herança da escola francesa numa só pessoa: a
utilização do Ballet (agora com uma maior preocupação com a coerência), a
utilização das gavotte, dos diálogos falados em vez dos
recitativos cantados italianos, uma maior preocupação em adaptar a
música aos textos (ao invés de os textos à musica como acontecia na
antiga tradição italiana), e de uma grande sensualidade e quase que
“doçura” melódica, esta última uma característica de grande influência
Gounoudiana na ópera do final do séc.XIX. Portanto, muito
resumidamente, na Manon de Puccini teremos música intensa e dramática,
e, na de Massenet, teremos música ligeira (não confundir com banal ou
pouco inspirada) e sensual.
"O Veredicto" -- Manon Lescaut (Algumas palavras têm links do YouTube direccionados para os momentos dos filmes pretendidos. Carregue com o botão direito e abra em novo separador.)
Para a elaboração da Manon Lescaut
de Puccini, concorreram não menos do que quatro libretistas (dos quais apenas
Illica e Giacosa ficaram imortalizados no mundo da ópera), o próprio compositor
e o editor Ricordi. A tarefa de reescrever o romance oitocentista do Abade
Prévost era uma tarefa ambiciosa, não só pela dificuldade de adaptar uma obra
clássica com inúmeras cenas e peripécias para a ópera, mas também porque a Manon de Massenet era uma ópera que
gozava já de larga popularidade quando Puccini decidiu compor a sua Manon Lescaut.
As óperas de Puccini não costumam ter prelúdios. Os sopros e os violinos
começam por entoar uma melodia jocosa e alegre, quebrando desde logo “o gelo” com a audiência. Desde o princípio, o espectador fica concentrado no espectáculo,
e esquece as tosses e os barulhos envolventes. Um prelúdio tradicional como
Massenet apresenta é, para Puccini, coisa do passado.
Se o encenador conseguir, o pano subirá no momento certo, em sintonia com a
música, dando algum tempo para o espectador entrar na atmosfera estudantil em
que se encontra o cavaleiro des Grieux, de modo a que não seja excessivo o tempo em que se
fica a olhar para o mesmo movimento no palco.
Surge um estudante a entoar uma canção às jovens que se encontram na hospedaria
e, por alguns minutos, ouve-se uma síntese de como é a vida boémia dos
estudantes parisienses. Quem souber ouvir este número na perspectiva certa
conseguirá facilmente compreender que esta história poderia ocorrer nos dias de
hoje, em qualquer lugar, no Técnico ou na Universidade Nova de Lisboa. O mesmo raciocínio
é menos directo na Manon de Massenet,
em que há demasiadas referências ao mundo religioso, hoje em declínio.
Mas des Grieux está quase exterior a esse mundo "o amor? não sei nada
dessa tragédia - ou melhor, farsa!". Repare-se só como a melodia é sonhadora nos momentos em que se repete "o amor?": eis algo
tipicamente pucciniano. É então que des Grieux canta uma espécie de cavatina ("Tra voi belle") às belezas que o rodeiam, transparecendo um
espírito calmo e quase indiferente. É este espírito que se abala subitamente quando o cavaleiro
avista Manon.
Uma corneta anuncia a chegada de uma carruagem, e toda a multidão dela se
acerca para ver quem chegou. Um acorde grave indica a descida de Geronte di
Ravoir (por Prévost designado por M. de B.) e indicia a tragicidade do que se
seguirá até ao fim. Lescaut e a sua irmã Manon saem a seguir. O ambiente
musical deixa de ser, desde aqui, alegre como no princípio; à medida que des
Grieux se precipita sobre Manon, o ritmo indicado na partitura já está reduzido
a metade daquele que retratava inicialmente os estudantes.
É o momento de dirigir uma crítica a Massenet. Ao longo do romance original,
M. de B. nunca aparece retratado de forma cómica (como Benoît em La Bohème). Na Manon, o correspondente
Guillot é uma espécie de arlequim francês, auxiliado por outro Brétigny, tanto
que as encenações por vezes o trazem em roupas excessivamente sumptuosas. E o
coroar deste arlequim ainda virá no quarto acto... Já na Manon Lescaut, Geronte é uma personagem impositiva e assertiva—um
poderoso baixo italiano.
A melodia torna-se cada vez mais apaixonada e delicada à medida que o
cavaleiro des Grieux dialoga com Manon. Como um cavalheiro, des Grieux elogia a
sua dama, que tão bela não seria certamente para um claustro de convento encerrar: "no seu destino reluz uma outra estrela". Manon mostra-se
comovida, e pergunta o nome do cavaleiro. O seu irmão chama-a e, prometendo
voltar, Manon retira-se; des Grieux fica só, pronto para a sua primeira
verdadeira ária: "Donna non vidi mai". De repente, toda a orquestra cresce, e inicia-se uma melodia perfeitamente
apaixonada, obviamente pucciniana. Os violinos delicados acompanham um recordar
das palavras do primeiro encontro. Des Grieux deseja ouvir para sempre a voz
que ouvira instantes antes: palavras comedidas e modestas, que à partida
arrebatam o público como todas as heroínas de Puccini.
Voltam os estudantes, quebrando o ambiente, e o espectador quer ir
imediatamente dar uma tareia aos jovens lascivos por interromperem um
momento tão belo que nem aplauso admite. Sempre com os estudantes em segundo
plano sonoro (e visual), entram Lescaut e Geronte, que se põem à conversa.
Quando o irmão de Manon descobre que o seu companheiro se trata do tesoureiro
francês enviado pelo rei, nota-se de imediato a sua intenção de usar a irmã
como forma de chegar à fortuna do velho rico, que parecia interessado em Manon.
De novo, uns breves acordes de sopros na orquestra indiciam o cerco da
tragédia. Lescaut lança-se ao jogo com os estudantes, e Geronte prepara-se para
raptar Manon, mas os seus planos são ouvidos pelo estudante já conhecido desde
o princípio como o “rei da malta”. Quando este conta o que ouviu a des Grieux,
a orquestra fica quase silenciosa, e aí sim, tem-se a certeza de que para des
Grieux "é coisa séria".
Manon regressa, manifestando-se interessada, e regressa uma orquestra comedida e modesta. Des Grieux responde, com a música traduzindo perfeitamente
a inquietação do cavaleiro. Em breve essa ansiedade musical se transforma em
dueto, e sente-se a aproximação dos dois jovens, culminando na junção das suas vozes.
O outro estudante interrompe-os, dizendo que Geronte se aproxima. Des Grieux
assume uma postura resolvida, e pede a Manon que fuja com ele. E sente-se o
entusiasmo da fuga dos dois.
Geronte chega, com uma orquestra de repente dissolvida. Apercebendo-se da
fuga de Manon, encontra o irmão Lescaut ainda à mesa de jogo. Este, esperto e
astucioso (acompanhado por melodia ligada e sedutora), vendo no velho remédio
para as suas dívidas de jogo, propõe-lhe que formem família sob a sua bênção de
irmão. Geronte contenta-se no adiamento da perseguição. O coro canta melodia e texto irónicos, gozando com Lescaut. Do silêncio irrompe a orquestra, com uma variação
do tema dos estudantes; e com os cinco segundos finais do acto se poupam os
aborrecidos interlúdios de banalidades, frequentes em Massenet.
Este acto é o mais dinâmico, e por isso causou tanta escrita. Explorado o
primeiro acto, pode-se apurar a sua essência, de certo modo simbolizada pela
ária "Donna non vidi mai":
paixão versus amor. Toda a filosofia
contida neste acto substitui, portanto, o segundo acto da Manon de Massenet, em
que se mostra um episódio da vida dos dois amantes e, tal como escreveu do
Abade Prévost, o rapto de des Grieux, ignorado por Puccini em virtude de evitar
um aumento desnecessário da ópera. Puccini é um impressionista; tal como em La Bohème, em Madama Butterfly, e em La
Rondine, diferentes actos funcionam como diferentes quadros de um
políptico.
O segundo acto decorre na casa de Geronte em Paris. Manon está no boudoir. A
música é agradável, mas depressa se torna monótona, e o ambiente estático. Manon
pergunta ao irmão por des Grieux e, numa comovente ária ("In quelle trine morbide"), lamenta
ter deixado o seu antigo amante. Lescaut informa que o cavaleiro se está a sair
bem no jogo e poderá regressar. A música torna-se esperançosa e brilhante.
Segue-se um interlúdio musical: um pequeno coro entra em cena e canta para Manon. Verdadeiramente, compreende-se como a vida luxuosa de uma dama parisiense
é enfadonha e aborrecida. Acompanhado por acordes destacados, Lescaut vai no
encalço de des Grieux.
Geronte chega, para assistir à aula de dança de Manon. Acabada a aula, Manon
fica só, e a música torna-se ritmada e impaciente. Des Grieux irrompe pela sala adentro. Manon lança-se nos braços do antigo amante, com música apaixonada, e
este responde amargurado, com música apaixonadamente áspera. De novo se repete,
e a orquestra pára. "Já não me amas mais?". Des Grieux é arrebatado
por uma só pergunta daquela que tanto ama, ainda que amargurado. O dueto
desenvolve-se numa série de hesitações, em crescendo, mas o cavaleiro não
resiste. Que soberbo retrato!—na vida não é exactamente assim? Nem na
correspondente (e excelente, diga-se a verdade) cena da igreja Massenet
conseguiu musicar tão fielmente a realidade. Puccini compôs verdadeiro diálogo.
Mas no momento que todo o auditório espera, os amantes são descobertos por
Geronte, que pela única vez revela um sentido irónico—e não cómico.
Geronte retira-se, enquanto Manon, de novo ludibriada pela ilusão de riqueza,
prefere recolher as jóias a fugir rapidamente. Por uns curtos momentos, des
Grieux exprime profunda desilusão e mágoa por Manon estar, de novo, a
contemplar primeiro as jóias, e depois o amor. Mas é tarde demais.
Os violinos irrequietos anunciam a chegada de Lescaut, ofegante, avisando que
Geronte se precipita para eles com a guarda. Mais uma vez, na pressa da fuga, Manon
hesita pelo seu "tesouro" e, de repente, com acordes verdadeiramente
arrepiantes (independentemente das palavras), des Grieux faz-se ouvir:
"traz apenas o coração, pois só o teu amor quero salvar". Numa
questão de segundos, os três estão rodeados de archeiros. Geronte ri, e a
guarda leva a mulher adúltera.
No primeiro esboço de desespero da ópera, des Grieux precipita-se para
Manon, mas Lescaut detém-no. "Páre, cavaleiro! Se o prenderem, quem a
poderá salvar?" "Ah Manon! Minha Manon!". A orquestra cresce
extraordinariamente; Geronte jubila, e quando o pano cai, os espectadores
atentos a uma boa representação estão como dentro da cena, à beira de um ataque
cardíaco. Nem a ler a cena original em que os dois amantes eram surpreendidos
na cama (de M. de B.!) o Plácido Zacarias se empolgou tanto!
Poucos conseguem criar sequências musicais como Puccini, exaltando tanto o
espectador. O Plácido Zacarias considera que, por bons que sejam o segundo e o
terceiro actos da versão de Massenet (exceptuando na ária "Ah fuyez, douce image", se bem
cantada), a música nunca é tão envolvente como a de Puccini. Em Puccini, há “amor,
e amor violento”; em Massenet, há amor e burla. Neste acto, o dinheiro é o
rival do amor.
Concluído o segundo acto, a ópera chega a um ponto de viragem. É necessário
tirar as primeiras conclusões, e para isso Puccini recorreu a um belíssimo intermezzo, situado entre o segundo e o
terceiro actos. Trata-se de uma belíssima peça para orquestra, sem qual a ópera
não seria a mesma. Um tímido e dorido violoncelo principia o número, e
juntam-se-lhe as violas. O ambiente é leve e triste, e, começa a fazer-se o
ponto da situação; ouvem-se desenvolvimentos do dueto do segundo acto, e quem
souber, ouvirá Manon a dizer "vê, meu amor—agora sou rica"*. Mas está
errado, porque a riqueza não são as jóias, nem o dinheiro—a orquestra cresce, e
a melodia torna-se profundamente apaixonada: é o amor. O amor é a riqueza.
Ouve-se então mais uma frase do dueto—"o amor, o amor"**!
É o amanhecer no Havre, o porto de embarque para os criminosos deportados no
século XVIII, e, tal como na Madama Butterfly, há uma sensação de aurora,
levantando suavemente o pano para o terceiro acto. Nem Massenet—e raramente
Wagner com os leitmotiven—conseguiu expor tanta filosofia numa peça de música
com cinco minutos.
Feitas as contas, a Manon francesa tem seis quadros, e precisa de todos eles
para chegar a onde Puccini chega em três. Até apetece comentar que quer pôr o
auditório a aplaudir de dez em dez minutos!
O Havre ainda está deserto, e ouve-se um homem a cantar uma história que,
tal como o coro canta no fim do primeiro acto, serve para ironizar a situação.
Para um habitué, são estes pormenores
que mantêm a ópera sempre nova. Lescaut e des Grieux vêm resgatar Manon, que
está prestes a embarcar para deportação nas Américas, juntamente com outros
criminosos. Manon está presa, mas ouve-se pela janela da cadeia. No diálogo que
tem com o amante, em que estão fisicamente separados, a música é tocante.
Lescaut anuncia que o seu plano de resgate falhou, e que o melhor a fazer é
correrem pela vida. Mas o fiel cavaleiro jamais abandonará Manon, e espera pelo
embarque. Surge uma multidão para ver o embarque. O desfile começa, mas des
Grieux retém Manon. A música é desesperada, e qualquer expectador achará a
mistura do texto do coro com o dos amantes impura. É a vez de Manon seguir, mas
des Grieux não a deixará ir! Irrompe em raiva com a orquestra, de espada em
riste—enquanto estiver vivo, ninguém tocará em Manon (ária "Ah, pazzo son"). Mas logo se apercebe do
seu erro; chora e implora piedade. E levam Manon. A música era tocante; passou
a revoltada, e agora é desesperada—como na vida. O amor é separado pelos
homens.
Finalmente, um oficial pergunta-lhe se quer povoar a América. O cavaleiro
não hesita, e a música torna-se brilhante, como o prospecto de um novo futuro.
Quem diria que, por esta altura, já Massenet matara a pobre Manon? E de uma
forma muito operática, observe-se; não se chega a perceber se morre por fadiga,
fome ou doença prolongada—simplesmente diz que "esta é a história de
Manon" e morre. Assim mesmo. Pergunte-se, aparte, se é uma história completa.
Ambas as óperas de Puccini e de Massenet divergem consideravelmente da História do Cavaleiro des Grieux e de Manon
Lescaut, de Prévost. Por exemplo, vários personagens foram inventados, e
tantos outros ignorados; haveria cenas passadas na ópera; Lescaut morreria em
meados da acção, e os amantes protagonistas deveriam viver alguns meses numa
povoação em Nova-Orleães antes de se aventurarem pelo deserto adentro. E é
natural que assim tenha sido, quando as alternativas seriam óperas da duração
do Anel do Nibelungo. Porém, a
substituição de uma cena no deserto por uma anotação na partitura dizendo
"local desolado perto da estrada para o Havre" parece muito mal ao
Plácido Zacarias.
No quarto acto da Manon Lescaut de
Puccini, a orquestra quebra o silêncio com acordes graves, cheios e pesados,
dos sopros e das cordas. Sem dúvida, após o desespero pintado no terceiro acto,
seguem-se o drama e a tragédia. O cenário e a música indicam que o fim está
próximo. Quem diria tal coisa na alegre abertura do primeiro acto ou na
pacífica abertura do segundo?
Manon Lescaut e o cavaleiro des Grieux já chegaram à América, e estão a atravessar
o deserto. A música, em si, é estéril, e não há mais nada senão o amor dos
dois amantes e o deserto. O cavaleiro tenta manter a amada acordada, mas ela
desmaia. Pela linha vocal do tenor, compreende-se que este teme a morte da
companheira, assustado pelos desmaios. E quando ela acorda, a música flui do
fosso da orquestra como uma explosão ou infusão de vida. Então, mais uma vez,
os dois cantam juntos, exacerbando o seu amor. A "heroína" desmaia de
novo. No meio do deserto, des Grieux não avista um fio de água e, desesperado,
brada aos céus. Segue em busca de água.
Manon desperta, e canta "Sola,
perduta, abbandonata". Mais uma vez, a orquestra começa com acordes trágicos, e segue para uma música que, em si, se diria deserta: Manon canta que
está só, perdida, e abandonada. Sabe que perdeu o caminho, e tudo acabou. Des
Grieux regressa sem ter conseguido encontrar água. Mas Manon—agora, na hora
final—diz-lhe que o ama. Assim sabe que não estará só. Os amantes beijam-se.
Sente-se a vida a fugir, enquanto a orquestra vai tocando cada vez mais
baixo. Chegou o fim. A morte paira sobre o cenário, e a orquestra retoma o tema trágico da abertura do acto. Des Grieux está só; o pano cai lentamente. No último acto, o amor é separado pela morte.
Tal como no livro de Prévost, a morte de Manon é estranha. No sentido real,
o espectador pode aduzir que seja por desidratação ("a sede
devora-me", diz Manon ao perder os sentidos), ou, no sentido figurativo,
por estar perdida, sem volta a dar, no fim do caminho.
Em Manon Lescaut há, por um lado, uma constante gradação dramática
crescente, sem motivos condutores, evitando que os espectadores se aborreçam
por música desnecessária. A excepção é sublime—aborrecer o público para mostrar
que quem está no palco também está aborrecido. A música começa leve e solta, e
acaba pesada e tenebrosa. No princípio tudo estava bem, tudo estava em vias de
ser. No fim, tudo estava perdido e errado (sendo o errado mais óbvio na ópera
de Massenet), e a acção era intensa.
Na ópera de Massenet, essa progressão não existe, tendo lugar uma sequência
mais ou menos alternada de situações típicas da ópera francesa do século XIX.
Alternam as burlescas de Guillot e de Brétigny e o drama dos dois amantes
separados pela família do cavaleiro. A música, nem sempre consistente (veja-se
o final a título de exemplo), oscila entre a de dança, a apaixonada, a
tristinha, a enfadonha, e a nostálgica. A essa Manon, falta coesão e objectividade.
O amigo blogger doÓpera para Principiantes—que foi muito simpático ao convidar o Plácido Zacarias para
dividir este trabalho sobre as Manons consigo—costuma dizer que Rossini
espremeria as óperas de Puccini, transformando-as comédias. Parece aqui ao PZ
que Rossini deu mesmo uma mãozinha a Massenet!!
Os gostos de diferentes pessoas variam, e porque não aceitar uma opinião
de... Puccini?
“Porque não haveria de haver duas
óperas sobre Manon? Uma rapariga tão inconstante como Manon pode ter mais do
que um amante.”
(texto do "veredicto" da Manon Lescaut pelo Plácido Zacarias)
O "Veredicto" do blogger -- Manon de Massenet.
A
Manon de Massenet começa com um alegre preludio musical que depressa se
transforma em compassos lentos e românticos. Estão desde logo lançados
os temas que iremos ouvir sob várias transformações ao longo de toda a
obra.
Quando
se levanta o pano, começa-se logo com um quarteto muito engraçado a
cantar sobre o hospitaleiro não lhes dar de comer e estarem a morrer à
fome. Logo aqui Massenet começa a ganhar pontos. De forma completamente
disparatada começamos por rir com a tontice a que estamos a assistir.
Surge então uma grande multidão para assistir à chegada da carruagem que
trás os viajantes. Dela sai Manon, que chegou à cidade para ir para um
convento. Começamos desde logo a perceber o carácter sarcástico que a
musica de Massenet inclui, e que se revelará na cena da igreja na sua
plenitude. Tanto pode conferir uma enorme inocência a Manon, como, por
outro lado, lhe dá um ar completamente irónico, uma vez que desde logo
percebemos que Manon, deseja tudo menos ficar fechada entre quatro
paredes rodeada de velhotas. (Sabe-se que Massenet era um convicto
ateu).
Não
sendo tão bom quanto Puccini na composição para grandes massas a música
que acompanha o coro é sempre toda ela colorida e bem-disposta, indo de
encontro com a jovialidade, naturalidade e alegria daquilo que envolve
as personagens. Até que Des Grieux surge e os dois se envolvem num dueto
altamente romântico e sensual em que decidem fugir para Paris. Uns
podem argumentar: Como pode o acto 1 ser superior ao de Puccini se nem
uma ariazinha a sério tem? Ao que respondo: Mas tem um senhor dueto!
Para quê ouvir um quando se podem ouvir dois? No dueto “nous vivrons a
Paris” que os dois amantes cantam antes de fugirem e de o acto terminar,
percebemos o ar sonhador com que cantam e se abraçam e com que abraçam a
nova vida que os espera. Os sonhos de vida conjunta, os planos de
felicidade, de uma casa em Paris, de um romance em Paris, de uma vida
boémia como a dos grandes romances. A menina do campo que se envolve com
um rapaz rico e que irá concretizar os seus sonhos!
O que
se narra no acto 2 da Manon de Massenet aparece implícito na de Puccini.
Mais uma prova de que Massenet pretende, muito mais que o seu rival
italiano, contar uma história ao invés de arranjar uma desculpa para
fazer uma grande cena dramática.
Neste
acto assistimos à vida íntima dos dois amantes, o seu idílio amoroso, em
que julgam que nada os pode separar. Mas pode. E não são os factores
externos, mas a própria ambição de Manon.
Quando o
seu primo surge lá em casa, acompanhado de Bretigny disfarçado,
assistimos a uma cena altamente comovente. Se por um lado temos um Des
Grieux sonhador, contente por estar a tentar convencer o seu pai a
aceitar Manon como sua futura esposa, por outro lado vemos Bretigny a
avisar Manon de que o pai de Des Grieux enviou alguém para raptar o seu
filho e afasta-lo de Manon e que esta pode contar com o apoio de
Bretigny, caso aceite viver com ele. Num impasse entre avisar Des Grieux
ou aceitar a vida de luxo que Bretigny lhe pode oferecer sem qualquer
inconveniente, percebemos que esta acaba por aceitar o que lhe foi
proposto. Aproveitando um momento da tarde desse dia em que se encontra
sozinha em casa, canta melancolicamente “Adieu nottre petite table”
em tom de despedida de tudo o que até ali viveu. São poucos compassos
mas carregados de uma profunda tristeza e pesar, e ao mesmo tempo
resolução. Manon quer ser feliz, embora julgue que aquilo que lhe trás
felicidade é mais palpável do que realmente é.
Quando
Des Grieux retorna, é como se fosse um caminhar lento até ao patíbulo.
Manon simplesmente actua, como se nada fosse, para manter Des Grieux
feliz. “En fermant les yeux” assistimos a um dos momentos mais puros,
simples e singelos dos momentos amorosos já compostos, tal é a
naturalidade do carinho e afecto a que assistimos. A musica serve apenas
de acompanhante, quase que de embalo.
E
quando ouvimos o bater na porta, o qual sabemos ser o momento em que Des
Grieux será levado, sentimos o palpitar do coração de Manon, o seu
impasse, o seu receio, a sua aflição, o seu pânico. Manon percebe então
que percisa de Des Grieux mas sente-se vacilar. Não quer deixá-lo, mas
também não quer sofrer mais e quando, por fim, o momento chega, Manon
deixa-se ficar impune, esperando o desenlace, exclamando apenas “mon
povre chevalier!”, em profunda resignação. Ouvimos um fim de acto
marcadamente romântico e apaixonado.
O acto
três, também não narra nada que se encontre na versão de Puccini. Este
encontra-se dividido em duas cenas. A primeira numa festa em Paris. A
segunda na Igreja de Saint-Sulplice.
Já
passou algum tempo desde que Manon e Des Grieux se afastaram. Manon é
agora uma mulher famosa e rica, que tem tudo o que deseja. Todas a
invejam, todos a desejam. Quando Manon surge entre a multidão todos a
celebram. Está radiante, como que a encarnação da felicidade. E canta
então uma gavotte a enaltecer a alegria da juventude e a enaltecer a sua
felicidade e superioridade face aos que a rodeiam.
Quando
termina de cantar, assistimos a um diálogo entre o Pai de Des Grieux e
Bretigny sobre o que entretanto aconteceu a Des Grieux. Manon ouve-o, e
sem conseguir resistir durante muito mais tempo, começa a fazer pergunta
atrás de pergunta, desculpando-se que uma sua amiga havia tido um caso
com Des Grieux. Uma vez mais um momento perfeitamente natural e realista
que facilmente conseguimos reconhecer mesmo nos dias de hoje. “ah eu
tenho um amigo que diz que disse que fez”. Percebemos então que Des
Grieux decidiu tornar-se padre e que se encontra muito abalado.
Percebemos pela primeira vez a insatisfação da vida de Manon, o seu
vazio emocional. E sempre com uma musica de fundo completamente alheada
do que se desenrola, assistimos ao pesar de Manon. Esta farta-se então
de tudo e segue em busca de Des Grieux.
Começa
então a segunda cena. Na igreja, percebemos que as moças piedosas que
agora enchem os bancos da igreja, apenas vão para ver o novo padre tão
lindo, cheias de lascívia ao invés de buscarem o perdão junto do
salvador. Assistimos ao pai de Des Grieux a falar com o filho em tom
irónico mostrando-lhe que aquilo não é a vida para ele e ouvimos de
seguida a uma ária de profundo desânimo do próprio Grieux “Je suis seule” em que este se expõe totalmente em frente de Deus.
Quando
Manon surge na igreja e o começa a tocar-lhe de forma sensual na mão
dizendo-lhe “N'est-ce plus ma main”, despertando-lhe o prazer da vida
passada, Des Grieux sente os seus votos vacilarem. Não pode deixar-se
levar novamente por aquela mulher que já destruiu uma parte dele. Ora,
uma cena de assédio e sensualidade dentro de uma sacristia garante mais
uns pontos a Massenet. Aqui não há limites para o escândalo. Há sim uma
representação irónica daquilo que eram as idílicas idiotices da sua era.
O sino toca, Des Grieux exclama que é a hora da oração, Manon
suplica-lhe que o olhe nos olhos, que o ama, que venha embora!
Este
dueto assume os píncaros da sensualidade e sexualidade. Um toque de
dedos aqui, um agarrar da mão, um subir o braço, um aproximar da cara, o
corpo do padre a tremer, a excitação a invadir-lhe, a voz sensual de
Manon no seu ouvido relembrando-o dos bons momentos passados…Caramba! O
homem não é de ferro e manda o hábito à fava e agarra Manon de forma
louca e apaixonada.
O
quarto acto encontra-se com o segundo da Manon de Puccini. Embora o
desenlace final seja o mesmo, ou seja, o aprisionamento de Manon e a
separação dos amantes, as situações não são as mesmas. Em Puccini a
desgraça acontece porque os amantes são apanhados dentro de casa de
Manon e Bretigny. Na de Massenet, são apanhados numa casa de jogo.
A
música que dá inicio a este acto para mim é bastante original. Começa de
forma intimista, quase misteriosa. Mostrando que o que ali se passa é
de alguma forma ilegal. Manon e Des Grieux agora são dois boémios que
alinham entrar em jogos de azar como forma de angariarem dinheiro para
sustentar os vícios de Manon, embora a contra gosto de Des Grieux, o
qual apenas se deixa arrastar. Conhecem uns truques e trapaceiam sempre
de forma limpa sem dar nas vistas. A música da cena de jogo não será tão
genial como a de Verdi na Traviata mas resulta bastante bem. Manon uma
vez mais canta o quão fantástica é, lançando de novo invejas entre os
seus admiradores, o que se revelará fatal. Quando os dois amantes são
descobertos, gera-se a confusão, ouvem-se gritos para se esconder o
dinheiro todo, e eis que surge a polícia e os prende. Surge o pai de Des
Grieux para o levar consigo e pagar a sua fiança, completamente
desapontado com a desgraça do filho, muito à semelhança de Germont no
segundo acto da Traviata. Assistimos neste acto a mais uma cena de
grande emotividade quando Manon cospe um “Miseráble” na cara do homem
que os denunciou e se separa de Des Grieux. A música é pesada, é triste,
é profunda, reflecte o desânimo, o desespero de todos os que ali estão
envolvidos. Não é certamente como o final do terceiro acto da Manon de
Puccini, o qual é extraordinário, mas não deixa de ser arrepiante. É
também ele grande, é também ele triste, é só e apenas mais curto e de
menor auto comiseração (tão frequentes em Puccini).
O
quinto e último acto narra praticamente o mesmo que o de Puccini, embora
em situações diferentes. Enquanto o do francês, Des Grieux paga a um
soldado para poder ir com a miúda” passar ali a noite” a uma casa na
aldeia, na de Puccini vemos que Manon e Des Grieux se encontram a fugir
da prisão, já no árido deserto em redor de Nova Orleães
Tenho
de admitir que, se analisado isoladamente e assim de forma superficial, o
quarto acto de Puccini pode bater o quinto de Massenet. A exigência que
faz dos dois únicos cantores em palco durante um acto inteiro
obrigando-os a manter a audiência constantemente cativada, a
orquestração altamente elaborada, dramática e possante, batem o final
mais suave de Massenet. As duas heroínas morrem, disso não temos
duvidas. Mas uma morre à sede, a outra morre de desânimo. E é
precisamente onde Puccini mais ganha que também mais perde. O seu quarto
acto, embora possua uma grande ária e dueto, torna-se, de certo modo
cansativo e um arrastar sem sucessão do drama e do desespero. Já na
Manon de Massenet assistimos a um final mais “clássico” é verdade, mas
também mais melancólico e sentimental.
No
final de Puccini lamentamos pelo sofrimento a que as personagens estão a
ser submetidas no meio do deserto. No de Massenet lamentamos porque os
sonhos dos dois amantes se encontram desfeitos. Assistimos a uma Manon
que finalmente se conhece e percebe aquilo que lhe fazia realmente
falta. A dor que causou à única pessoa que sempre a amou e um puro e
genuíno desejo de expiação (e eua doro uma boa história de expiação!).
Manon está profundamente resignada de que não merece mais viver porque
nunca trouxe felicidade a quem a rodeava. Des Grieux, por seu turno,está
uma vez mais disposto a lutar por ela. E neste diálogo sincero e
triste, onde a musica é composta por sons suaves e subtis que acompanham
mais do que abafam os cantores (como acontece na Manon de Puccini),
assistimos a um recordar de tudo aquilo que assistimos anteriormente.
Ouvimos ecos de melodias anteriores que nos fazem pensar que
acompanhámos realmente uma história do princípio até ao fim. O final
desta ópera é quase a tender para o romantismo épico, se isso existir,
crescendo e crescendo, quais melhoras antes da morte, até que por fim,
ouvimos em tom suspirado um “n’est-ce plus ma main” cantado de forma
carinhosa. Ouve-se umas cordas como prenúncio de morte e um último
suspiro dizendo “ c’est l’histoire de Manon Lescaut”. A música acaba
intensamente e o pano cai. Meu Deus! como passar indiferente a este
final!
Quando
chegamos ao fim, sentimos aquela sensação de melancolia, tristeza,
misturada com prazer e barriga cheia, porque assistimos a uma história a
sério, contada do princípio ao fim, com tudo a que temos direito.
Rimos, comovemo-nos, deslumbramo-nos, sentimos tudo o que os personagens
sentem, vemos Ballet, ouvimos musica, e concluímos: Que belo serão aqui
passei! Porque mais que tudo, a Manon de Massenet é isso mesmo: Uma
grande história muito bem cantada.
E para
os que ainda não se encontram totalmente convencidos…um ultimo trunfo. A
Manon de Massenet não acaba aqui. Uma segunda opera foi
composta,raramente levada a palco, dado o seu carácter bem menos
adaptável, chamada “Le Portrait de Manon” onde agora vemos um Des Grieux bem mais velho com os seus filhos, olhando fixamente para o retrato que guardou de Manon.
E se
tudo o que aqui foi apresentado, caríssimo leitor, não o tiver feito
mudar de opinião relativamente à melhor versão desta história, fico pelo
menos satisfeito de que, daqui em diante, irá pelo menos ter um eco
reminiscente de que existem outras interpretações do mesmo.
O Plácido Zacarias deixou algumas críticas em atraso, mas pensa que o dano não é irreparável dado que os espectáculos em questão foram de representação única e podem ser agrupados como apontamentos de uma semana cultural.
I
Recital de Karita Mattila "O regresso da diva"
Fundação Calouste Gulbenkian, 8 de Fevereiro de 2012
Karita Mattila. (Fot. New York Times)
Estava previsto que este recital extraordinário iniciasse a corrente temporada de música clássica na FCG. Porém, motivos de saúde transferiram-no para a quarta-feira da semana passada, talvez permitindo a plena afluência do público.
Bastará referir a veracidade do título do recital para que o leitor tenha uma noção da excelência do espectáculo, muito embora a subtileza de uma lieder interpretada por Mattila seja intraduzível por palavras. A récita foi dividida em duas partes: na primeira foram cantadas (sempre com Martin Katz ao piano) deliciosas obras de Berg e Brahms, e, na segunda parte, belíssimas canções de Debussy e Strauss.
Não obstante ser uma "diva" aos ouvidos, a soprano finlandesa mostrou, nos encores, uma personalidade carismática e divertida, desejando ao público que nessa noite sonhasse consigo. Certamente!!
II
Götterdämmerung | Met Live in HD
Fundação Calouste Gulbenkian, 11 de Fevereiro de 2012
Finalmente uma imitação de cavalo na cena final!! (Fot. Ken Howard/Metropolitan Opera)
Pouco mais de um ano depois da estreia de Robert Lepage como encenador na Metropolitan Opera, eis a conclusão de um monumental Anel do Nibelungo--um colossal conjunto de quatro óperas épicas de Richard Wagner, narradoras da história de um anel omnipotente que leva à destruição do mundo, no fim redimido pelo amor.
Infelizmente, o genial autor da ópera não pôde viver até 2012 para ver o Anel encenado por Lepage. A plataforma rotativa que constitui o cenário foi explorada de forma notável, criando efeitos cénicos invulgares ou até inéditos. Existem também desvantagens; se a encenação é um prodígio da coligação entre as ideias tradicionais e a tecnologia moderna, o negativo do molde é a falta de flexibilidade da máquina e a inerente incapacidade de produção de cenas espectaculares out of the box para quem já viu a encenação das três óperas precedentes. A cena final da destruição e redenção do mundo pelas chamas não é entusiasmante. Resta ao espectador conformar-se com a subtileza dos deliciosos pormenores semeados por toda a ópera.
Para o Plácido Zacarias, está visto e ouvido que esta produção não é de grande interesse vocal. Voigt e Hunter Morris não são cantores brilhantes e, não tendo a primeira cordas vocais suficientemente fortes para Wagner, não se gera uma atmosfera de cooperação onde se consiga sentir o amor em si, ou o amor como a forma de redenção espiritual. Melhor estiveram os actores secundários, como a Waltraute de Meier, o Gunther, a Gutrune e o Hagen de König: fortíssimo, ideal sucessor de Salminen.
Evgeny Kissin é um dos mais conhecidos pianistas da actualidade. No passado domingo, subiu de novo ao palco da FCG. Que melhor maneira de conquistar um auditório há do que começar pela "Sonata ao luar" (op. 27, nº2) de Beethoven e terminar em nocturno (op. 32, nº2) e sonata (nº3, op. 58) de Chopin?
O pianista russo dedilha o teclado com mestria, e quem se tenha sentado à direita do auditório terá indagado se visão e audição correspondiam. Foi, sem dúvida, um recital brilhante -- quase integralmente uma exibição de virtuosismo musical. A sonata de Barber (op. 26) é uma obra moderna menos acessível, e a sua interpretação pareceu consistente mas não tão apelativa como o repertório standard que cercou esse número.
Fevereiro de 2012 começou. Tenazmente, contra os leitores que não gostam de comentar este género de post, o Plácido Zacarias volta a recuar ao passado e a (re)publicar arquivos quase raros!