2012 chegou; o Teatro Nacional de São Carlos brindou o público com um concerto de ano novo protagonizado por Elisabete Matos, suscitando abundantes aplausos. O programa incluiu grande repertório, passando por Verdi e Puccini, pela opereta vienense, e por imensa música espanhola -- talvez demasiada, tendo em conta que estamos a celebrar o ano novo em Portugal e não se tocou música portuguesa.
Por Força do Destino, o espectáculo começou mal. Ocorrem-me vários adjectivos desagradáveis para descrever a direcção musical de Miquel Ortega, maestro espanhol que estragou a delicadeza do intermezzo de Manon Lescaut e deixou o coro gritar, sobrepondo-se à soprano solista. Foi curioso notar uma ironia ao ouvir o coro português cantar "minha pátria, tão bela e perdida", sob a direcção musical também algo perdida de um maestro espanhol que arruinava o coral "va pensiero" do Nabucco.
Posto de lado esse defeito, quem realmente desejou as boas entradas foi a soprano portuguesa Elisabete Matos, já vista nesta temporada no D. Carlos. Tal como o leitor pode aduzir da audição deste excerto do último festival de ópera de Óbidos, a soprano Elisabete Matos é uma Turandot de arrepiar. Foi tão aplaudida pela ária "In questa reggia", que por momentos pensei que a sala viria abaixo. La Matos não falhou em arrepiar-me com a sua voz doce, mas maleável, em papéis tão diferentes como Turandot, Macbeth ou Giuditta.
O repertório espanhol que interpretou não é meu conhecido, pelo que não soube apreciar inteiramente o que ouvi; todavia, é certo é que o aplauso foi bem voluntário e forte! A célebre ária "meine lippen sie küssen so heiss" -- supostamente a última -- não me pareceu muito apaixonada nem transbordou de emoção como se quer, mas o encore de "La Périchole" de Offenbach foi brilhante e, a par de outra canção espanhola, encerrou bem o concerto.
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| A grande quantidade de anúncios afixados no Metro colmatou o atraso do anúncio deste espectáculo. |
A iniciativa deste concerto de ano novo foi excelente e espero que se venha a repetir. É bom começar o ano com um concerto desta qualidade, com a sala do São Carlos cheia. O leitor mais atento (ou céptico) perguntar-se-á porque avalio este espectáculo com quatro estrelas, face à tão pobre direcção musical. A resposta é simples: Elisabete Matos esteve a cinco estrelas em considerável parte do concerto.
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