Estúdio de Ópera em S. Carlos: Itália anos 20 (Foyer Aberto)

Fui hoje obter prova presencial acerca do tenor Carlos Cardoso, recentemente aparecido num concurso televisivo chamado "Portugal Tem Talento", e a quem o blog "Valkirio" tem prestado muita atenção.

Este espectáculo de entrada gratuita teve como tema as "canções de salão" típicas dos anos 1920', de compositores italianos. Interpretaram-se obras de Leoncavallo, Mascagani, Tosti, Zandonai, Franco Alfano, Ildebrando Pizzetti, e de Respighi. A selecção musical parece deve-se ao pianista (de vocação essencialmente carrilhonista) João Paulo Santos, que fez uma pesquisa interessantíssima, cujo enquadramento histórico e cultural expôs pessoalmente ao público.


A soprano Ana Franco cantou com emoção, mas por vezes demasiado demasiado alto, e, consequentemente, com alguma estridência. Irina Grelha, outra soprano, parece não ter sequer vocação sequer para cantora. Tiago Matos é um barítono que sabe optimizar a sua voz, e "cumpriu" perfitamente.

Carlos Cardoso em "Portugal Sem Tem Talento".
E o esperado tenor que cantou "Nessun dorma" para "Portugal Tem Talento" e parece ter sido apanhado a defender-se como "TenorVoicePower" no YouTube?? É um verdadeiro tenor; já é um princípio! A sua voz, de timbre agradável mas banal, é projectada de um modo nem sempre regular. Não vejo isto como um dos célebres technical issues, mas antes alguma falta de sentido musical moldável por um bom maestro. O canto de Carlos Cardoso parece ser adaptável a um repertório vasto, pelo que penso que temos aqui um bom tenor secundário, a ser rapidamente contratado para óperas normais.

Foi um espectáculo agradável e muito interessante, com excepção da soprano Irina Grelha.

Beethoven 9 | Fundação Calouste Gulbenkian, 3 de Junho de 2011

Em primeiro lugar, gostava de dizer que já houve um espectáculo semelhante a este, na Gulbenkian, há cerca de dois anos.
Na primeira parte, tocou-se a abertura de Fidelio e cantou-se Ah! Perfido!. A soprano Adina Aaron demonstrou ter uma voz com óptima projecção, mas de timbre pouco interessante, e com uma iminente ameaça de estridência.

O maestro Bertrand de Billy.
Depois do intervalo, foi a nona sinfonia. Acabando em Hino Europeu, é uma forma de encerrar com chave de ouro -- neste caso, leia-se de prata -- qualquer ciclo de concertos de música clássica. A direcção musical de Bertrand de Billy é interessante; básica (por vezes demasiado) em alguns aspectos, e pouco convencional noutros. O coro da Gulbenkian teve um bom desempenho vocal, passando também por uma atitude física algo desmazelada e por alguns "picos" de estridência. Os quatro solistas possuíam capacidades vocais heterogéneas. Nenhum tinha uma voz particularmente bonita. O barítono projectava bem a voz, o tenor tinha algumas dificuldades "técnicas", a meio-soprano não se fazia ouvir, e a soprano da primeira parte teve um bom desempenho.
Foi um espectáculo interessante, aplaudido efusivamente e de pé.

Um espectáculo bonzito. Os bilhetes estavam esgotados, mas houve muitos lugares vagos.

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Nova Temporada de Música da Fundação Calouste Gulbenkian | 2011/2012

A temporada de música "11/12" da F. C. Gulbenkian foi há pouco dada a conhecer ao público. Quem entrar a partir de hoje na Gulbenkian, pode ver o novo look da "Gulbenkian Música":


A seguir à apresentação do programa, seguiu-se um "momento musical", em que se tocou metricamente um quarteto de Puccini com música da Manon Lescaut, e em que Maria Luísa de Freitas se lançou (em jeito de quem se lança de um precipício) a canções de Luciano Berio.

Numa análise muito superficial do programa, parece que se mantém o standard de qualidade do ano passado, eliminando espectáculos de menor interesse. A qualidade previsível que se pode esperar dos espectáculos varia entre o "atractivo/interessante" e o "muito atractivo/muito interessante". Mas nem um Mahler?!...

A Gulbenkian adianta-se um ano nas comemorações do bicentenário do nascimento de Richard Wagner, com o ciclo "Wagner +". Virão transcrições de Liszt das obras do seu genro, virá o Tannhäuser dirigido por Bertrand de Billy; virão cenas de Tristão e Isolda, e o primeiro e terceiro actos de Siegfried, com a Orquestra Gulbenkian, entre outras peças. E destaque-se a conclusão do ciclo no Anel do Nibelungo, Live in HD From The Metropolitan Opera House, NY (trailer abaixo)..


Há um festival de Jazz em Agosto, deliciosamente quebrado por um recital de Karita Mattila a 17 de Setembro, em que se cantarão canções de Berg, Brahms, Débussy e Strauss.
Mantém-se um ciclo de piano do género dos anteriores, em que participarão Sokolov, Kissin, Maria João Pires, Arcadi Volodos e Radu Lupu, entre outros.
Gustavo Dudamel voltará, desta vez com orquestra sueca. Também Esa-Pekka Salonen voltará (trazendo consigo John Tomlinson) para a sinfonietta de Janacék e a ópera O Castelo do Barba Azul, de Bartók, com narração em português (wtf?!).
Há também um programa interessante com repertório barroco, contando com René Jacobs e Barbara Hannigan -- mas eu, na minha ignorância musical, não tenho paciência para isso, nem para as óperas de Mozart que se passarão.

Entretanto, o programa já está online aqui. O resumo da temporada encontra-se a partir da página 158. Parece uma temporada bastante interessante, mas não "tanto" como dizia por aqui alguém no outro dia.

Die Drei Pintos | Fundação Calouste Gulbenkian (28 de Maio de 2011)

Os Três Pintos é uma ópera cómica esboçada por Carl Maria von Weber no final da sua carreira, e acabada por Gustav Mahler, que não pôde deixar de caprichar romanticamente no entre-acto da obra. A orquestração, na maior parte desta ópera, mantém-se, ainda assim, do género do princípio do século XIX, com algumas nuances mahlerianas.
Programa de sala e libretto.
Narra-se a história de uma espécie de "quadrado" amoroso entre nobres espanhóis. Dois destes fazem-se passar pelo dito Pinto, pelo que aí estão Os Três Pintos em disputa pela donzela Clarissa. O maestro Lawrence Foster, frequentemente olhado de lado, conseguiu sobressair este enredo em música, promovendo a cooperação entre os cantores e a orquestra, optimizando assim as vozes não projectáveis ou menos interessantes.
O auditório da FCG a 3/5.
Quanto aos cantores, apenas dois de oito eram portugueses, e não valeu a pena chamar gente de fora à cena, porque apenas Phillipe Fourcade se evidenciou como Don Pantaleone, o pai de Clarissa (Michaela Kaune). O herói-tenor esteve frequentemente rouco, e algumas notas agudas foram um desastre.
O actor Fernando Luís, que narrou a ópera na perspectiva de Mahler.
Este espectáculo não teve encenação, ao contrário das óperas "semi-encenadas" que na Gulbenkian se têm visto, como Da Casa dos Mortos ou Ariadne auf Naxos: foi uma récita de estante e partitura. David Pountney, que vem no programa de sala indicado como o  responsável pela "concepção", decidiu interromper a ópera e pôr Fernando Luís a narrá-la, impersonando Mahler, que analisava e recompunha os manuscritos de Weber. Foi um aspecto interessante, mas só isso -- interessante.
Sala a cerca de três quintos. Interessante.

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Observação: Coro da Gulbenkian com uma senhora a abanar-se com a própria partitura.