Beethoven 9 | Fundação Calouste Gulbenkian, 3 de Junho de 2011

Em primeiro lugar, gostava de dizer que já houve um espectáculo semelhante a este, na Gulbenkian, há cerca de dois anos.
Na primeira parte, tocou-se a abertura de Fidelio e cantou-se Ah! Perfido!. A soprano Adina Aaron demonstrou ter uma voz com óptima projecção, mas de timbre pouco interessante, e com uma iminente ameaça de estridência.

O maestro Bertrand de Billy.
Depois do intervalo, foi a nona sinfonia. Acabando em Hino Europeu, é uma forma de encerrar com chave de ouro -- neste caso, leia-se de prata -- qualquer ciclo de concertos de música clássica. A direcção musical de Bertrand de Billy é interessante; básica (por vezes demasiado) em alguns aspectos, e pouco convencional noutros. O coro da Gulbenkian teve um bom desempenho vocal, passando também por uma atitude física algo desmazelada e por alguns "picos" de estridência. Os quatro solistas possuíam capacidades vocais heterogéneas. Nenhum tinha uma voz particularmente bonita. O barítono projectava bem a voz, o tenor tinha algumas dificuldades "técnicas", a meio-soprano não se fazia ouvir, e a soprano da primeira parte teve um bom desempenho.
Foi um espectáculo interessante, aplaudido efusivamente e de pé.

Um espectáculo bonzito. Os bilhetes estavam esgotados, mas houve muitos lugares vagos.

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Nova Temporada de Música da Fundação Calouste Gulbenkian | 2011/2012

A temporada de música "11/12" da F. C. Gulbenkian foi há pouco dada a conhecer ao público. Quem entrar a partir de hoje na Gulbenkian, pode ver o novo look da "Gulbenkian Música":


A seguir à apresentação do programa, seguiu-se um "momento musical", em que se tocou metricamente um quarteto de Puccini com música da Manon Lescaut, e em que Maria Luísa de Freitas se lançou (em jeito de quem se lança de um precipício) a canções de Luciano Berio.

Numa análise muito superficial do programa, parece que se mantém o standard de qualidade do ano passado, eliminando espectáculos de menor interesse. A qualidade previsível que se pode esperar dos espectáculos varia entre o "atractivo/interessante" e o "muito atractivo/muito interessante". Mas nem um Mahler?!...

A Gulbenkian adianta-se um ano nas comemorações do bicentenário do nascimento de Richard Wagner, com o ciclo "Wagner +". Virão transcrições de Liszt das obras do seu genro, virá o Tannhäuser dirigido por Bertrand de Billy; virão cenas de Tristão e Isolda, e o primeiro e terceiro actos de Siegfried, com a Orquestra Gulbenkian, entre outras peças. E destaque-se a conclusão do ciclo no Anel do Nibelungo, Live in HD From The Metropolitan Opera House, NY (trailer abaixo)..


Há um festival de Jazz em Agosto, deliciosamente quebrado por um recital de Karita Mattila a 17 de Setembro, em que se cantarão canções de Berg, Brahms, Débussy e Strauss.
Mantém-se um ciclo de piano do género dos anteriores, em que participarão Sokolov, Kissin, Maria João Pires, Arcadi Volodos e Radu Lupu, entre outros.
Gustavo Dudamel voltará, desta vez com orquestra sueca. Também Esa-Pekka Salonen voltará (trazendo consigo John Tomlinson) para a sinfonietta de Janacék e a ópera O Castelo do Barba Azul, de Bartók, com narração em português (wtf?!).
Há também um programa interessante com repertório barroco, contando com René Jacobs e Barbara Hannigan -- mas eu, na minha ignorância musical, não tenho paciência para isso, nem para as óperas de Mozart que se passarão.

Entretanto, o programa já está online aqui. O resumo da temporada encontra-se a partir da página 158. Parece uma temporada bastante interessante, mas não "tanto" como dizia por aqui alguém no outro dia.

Die Drei Pintos | Fundação Calouste Gulbenkian (28 de Maio de 2011)

Os Três Pintos é uma ópera cómica esboçada por Carl Maria von Weber no final da sua carreira, e acabada por Gustav Mahler, que não pôde deixar de caprichar romanticamente no entre-acto da obra. A orquestração, na maior parte desta ópera, mantém-se, ainda assim, do género do princípio do século XIX, com algumas nuances mahlerianas.
Programa de sala e libretto.
Narra-se a história de uma espécie de "quadrado" amoroso entre nobres espanhóis. Dois destes fazem-se passar pelo dito Pinto, pelo que aí estão Os Três Pintos em disputa pela donzela Clarissa. O maestro Lawrence Foster, frequentemente olhado de lado, conseguiu sobressair este enredo em música, promovendo a cooperação entre os cantores e a orquestra, optimizando assim as vozes não projectáveis ou menos interessantes.
O auditório da FCG a 3/5.
Quanto aos cantores, apenas dois de oito eram portugueses, e não valeu a pena chamar gente de fora à cena, porque apenas Phillipe Fourcade se evidenciou como Don Pantaleone, o pai de Clarissa (Michaela Kaune). O herói-tenor esteve frequentemente rouco, e algumas notas agudas foram um desastre.
O actor Fernando Luís, que narrou a ópera na perspectiva de Mahler.
Este espectáculo não teve encenação, ao contrário das óperas "semi-encenadas" que na Gulbenkian se têm visto, como Da Casa dos Mortos ou Ariadne auf Naxos: foi uma récita de estante e partitura. David Pountney, que vem no programa de sala indicado como o  responsável pela "concepção", decidiu interromper a ópera e pôr Fernando Luís a narrá-la, impersonando Mahler, que analisava e recompunha os manuscritos de Weber. Foi um aspecto interessante, mas só isso -- interessante.
Sala a cerca de três quintos. Interessante.

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Observação: Coro da Gulbenkian com uma senhora a abanar-se com a própria partitura.

Die Walküre | Met Live in HD

Mais uma vez, do grande auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, assistimos a uma ópera Live (or not) in HD da Metropolitan Opera House. Desta vez, foi A Valquíria, de Richard Wagner. Esta produção do Anel do Nibelungo tem sido muito publicitada por todo o mundo pela sua encenação revolucionária, concebida por Robert Lepage.
Uma das principais imagens publicitárias desta nova produção.
A encenação é extraordinária, embora, como já tenho ouvido dizer, a cena final não tenha nem metade da potência da produção de Schenk, por muitos considerada "uma doença". Uma descrição pormenorizada pode ser lida no blog "Fanáticos da Ópera".
Siegmund, na tempestado do princípio do acto I.
Siegmund e Sieglinde foram, respectivamente, interpretados por Jonas Kaufmann e Eva-Maria Westbroek. Que duo! Kaufmann tem sido muito criticado "por não ser um verdadeiro heldentenor", mas penso que isso (sim) é uma crítica verdadeiramente destrutiva; com o seu timbre "escuro", Kaufmann consegue dar grande credibilidade a Siegmund. Sieglinde foi simplesmente fantástica!
Sieglinde regressa para junto de Siegmund.
Bryn Terfel, que ultimamente tem tido queda para wagneriano, foi um excelente Wotan. Também aqui as opiniões têm divergido, e até compreendo o sentido daqueles que dizem que wagner não é his cup of tea. A voz, por vezes, parece pouco cheia para o deus, mas a sua expressividade, quer vocal quer cénica, ultrapassa em larga medida esse possível defeito.
Sieglinde indica a espada Notung.
Como se escreveu no Opera Obsession, "quando é que alguma vez se quis que o dueto de Fricka com Wotan durasse tanto"? A isso, devemos a excelente prestação vocal de Stephanie Blythe. Na na FCG, sentia-se aquela maravilhosa voz a encher a sala -- e a cabeça de Wotan!
O fim do diálogo de Wotan com Fricka.
Hans-Peter König, barítono de inquestionáveis qualidades vocais, deixou-me um pouco desapontado com o seu Hunding. Faltou-lhe objectividade no modo como expunha os seus sentimentos. Por exemplo, quando dizia que Siegmund não lhe era bem-vindo por este não ser protegido pelas nornas, mais parecia que estava a contar uma piada, e penso que não é essa intenção.
Wotan conta a Brünnhilde a história do Ouro do Reno.
Mas a alma do espectáculo, a Valquíria de Deborah Voigt, é que pode ter sido uma quebra na qualidade do espectáculo -- temos uma cantora principal fora de repertório. Por mais que tente mudar o ponto de vista, desde que começam aqueles Hojotohos, nota-se esse defeito. É uma Brünnhilde pouco modesta e demasiado travessa, que não me conseguiu convencer.
Ao morrer, Siegmund reconhece o seu pai, Wälse.
Devo deixar uma nota muito positiva dirigida às oito outras Valquírias, que estiveram perfeitamene sincronizadas, sem gritos e com vozes bonitas. HojoTToho para elas!
A brilhante encenação para a cavalgada das valquírias, merecidamente aplaudida!
A direcção musical do grande Levine vai cada vez mais rápida, e já começo a compreendê-la, mas, à medida que algumas partes da música atingem pontos de calar as tosses, sinto que o amor -- já em si com uma orquestração, digamos, wagneriana -- vai-se perdendo. Já assim falava Carlo Maria Giulini...
A encenação do épico finale, embora interessante, não tem nem metade da potência da encenação de Schenk.

Encerra-se com chave de ouro a temporada de 2010-2011 do Met Live in HD. Veja aqui o que virá na próxima.




Excelente espectáculo; auditório quase cheio.