Janacek: Da Casa dos Mortos @ Gulbenkian, 6/I/2010


Janacek não é certamente um compositor com que eu esteja muito familiarizado. Ainda assim, assistindo a concertos de música moderna e aprendendo sobre diferentes conceitos de ritmos, melodia e diversidade de temáticas, penso que consegui apreciar o espectáculo que vi.

Capa do programa da FCG. Cuidado com a roupa que mancha de tinta!!
Assim que vi o nome do maestro Esa-Pekka Salonen, fiquei logo curioso. Estive a ler umas linhas que o maestro dedicou ao espectáculo que dirigiu e penso que pode esclarecer muitas ideias (imagem abaixo). A direcção musical foi de carácter superior, sendo que por vezes apenas me questionei se o maestro tinha noção da capacidade acústica do auditório da FCG: habituado a grandes salas, Salonen fez a orquestra tocar fortissimo de um modo que por vezes me pareceu quase impertinente. Mas melhor é difícil...

Algumas linhas que o maestro dedicou ao espectáculo. Carregue para aumentar.
A encenação é inovadora. Há uma sequência de filmes e imagens sintonizadas com a música. De início havia uma cortina que permitia criar um efeito de projecção parcialmente tridimensional. Já pensava eu "não me digas que vou ter esta coisa à frente da orquestra todo o espectáculo"; mas a final deixam-na apenas cair. Os cantores sentavam-se em cadeiras com pequenos adereços e vestuário simples condizendo com um ambiente mais campestre do que prisional.

Esa-Pekka Salonen. Imagem retirada do programa da FCG.
As vozes foram pouco interessantes. O político deportado era um velho (Esa Ruuttunen) que nem sempre se fez ouvir e que, apesar de ser o personagem principal, não tem muita participação vocal. Quem apareceu como bom cantor e óptimo actor foi Pavlo Hunka (Chichkov). O Skuratov de Gordon Gietz também foi bom, mas pouco actuado e audível. O coro esteve óptimo e as restantes vozes -- que tinham papéis muito reduzidos -- pouco se fizeram ouvir sobre a orquestra de Salonen e Janacek, ao mesmo tempo que um cantor chegava a fazer de 9 (!) personagens diferentes.


Ai que difícil... mais bilhetes a cair do céu? A malta não perdoa: segundos depois, já estava ganho!

Debate: o Vestuário na Ópera e em Concertos


Ópera em S. Carlos, Março 2017. Fotografia de David Rodrigues.

Houve uma altura em que os lugares caros da ópera eram lugares de formalidade, como se vê nos filmes. Nos anos 70, segundo me contam, era proibido entrar em S. Carlos sem traje de gala; contudo, desde os anos 80, é possível ir de jeans à ópera. Actualmente, apenas uma minoria dos teatros do mundo exige formalidade. A maioria, como S. Carlos, a Metropolitan Opera ou até festivais de ópera na Alemanha, anunciam: “Não existe um código de vestuário. Habitualmente o público veste-se de uma forma mais formal para as galas ou noites de estreia, mas é opcional. Recomenda-se vestuário confortável.” 
      Na minha experiência, vi várias pessoas a serem proibidas de entrar em hotéis, restaurantes e discotecas pelo que tinham vestido, mas nunca na ópera. Isto quer dizer que existe uma tradição não escrita e suficientemente respeitada que, pelo menos em Portugal, é facultativa. A fotografia acima ilustra bem que não estamos a falar de uma tradição de grande formalidade nem de fashion statements. Em S. Carlos e na Gulbenkian, existem espectadores formalmente vestidos e alguns mais descontraídos. Na Gulbenkian, predominam os descontraídos, dos quais apenas uma minoria usaria jeans. Há vários termos que podem descrever o ambiente, que varia entre business, business casual ou summer business casual.
      Para a ópera no Teatro de S. Carlos (Chiado), os lugares da plateia são quase igualmente ocupados por formalidade e casualidade. Nos camarotes dos dois primeiros andares, predomina o vestuário formal, enquanto os lugares dos camarotes e do balcão superiores são locais de maior casualidade.  Nos espectáculos nocturnos (principalmente nas estreias), o vestuário tende a ser mais formal. Embora ninguém seja proibido de entrar por usar ténis ou jeans, quem o fizer sentir-se-á inevitavelmente diferente--com as implicações habituais da palavra, boas ou más. É importante que o espectador se sinta bem; porém, convém notar que t-shirts e, ainda mais, calções ou chinelos, não são boas ideias e podem ser vistos como ofensivos ao “decoro do teatro”. Esta noção de “decoro do teatro” é uma tradição histórica e não uma invenção para segregar as classes: não é à toa que alguns dos melhores teatros de ópera no mundo sugerem aos espectadores que tragam “vestuário confortável,” mas depois têm um público muitíssimo respeitador da cerimónia da formalidade. Além disso, posso adiantar que o S. Carlos tem um público socialmente muito diverso em comparação com outros teatros do mundo.
      O meu conselho é genérico: respeitem as tradições da sociedade e respeitem-se a vocês mesmos. Imaginem que iriam visitar uma mesquita apesar de serem cristãos: não se descalçariam ao entrar para respeitar a tradição islâmica? Contem a vossa experiência nos comentários.

O PR em visita não oficial ao teatro de S. Carlos

S. Carlos nos tempos da monarquia portuguesa

Visita de estado da rainha do Reino Unido (S. Carlos, anos 50)
Nota: este texto foi actualizado em Setembro de 2017.

Separata (Dez 2010)

Vai não vai, quero escrever aqui algumas "coisinhas" que parecem tão impertinentes que nem as publico. Às vezes, ficam em rascunho; outras vezes, esqueço-me. Para terminar este ano de 2010, inicio uma nova rubrica que, não me lembrando de outra palavra, chamo de "separata". Tenciono acumular essas "coisinhas" e, vai não vai, pô-las aqui.

A árvore de Natal no TNSC este ano.


O serviço público de limpeza nas escadas do largo de S. Carlos em Dezembro de 2010.

Alguns pormenores que demonstram a glória do Teatro Nacional de São Carlos. Dezembro de 2010.

"Estamos a abrir as portas a toda a gente: podem vir de calças de ganga, sem gravata ou jóias caras" -- disse Martin André em entrevista à Rádio Renascença.
(A sério?? Posso mesmo??? De certeza????)
"Vão à bilheteira, tomem um copo de vinho no bar e ouçam a 'Cavalleria Rusticana'" -- Martin André (Fonte)
(Ir bem bebido era, de facto, coisa essencial para essas récitas...)

O Plácido Zacarias deseja a todos os frequentadores deste blog um óptimo ano de 2011, começando logo por aqui na primeira semana (antes mesmo Da prometedora Casa dos Mortos de Esa-Pekka Salonen) com um debate. Espero conseguir ter por essa altura a atenção do maior número de leitores possível, para que possamos obter um debate rico e interessante.

Colecção "Ópera": no 42: "D. Carlos - Verdi" (1951) - IV





Oberve-se bem o que era antigamente, já em tempos considerados de decadência, uma récita de patear em S. Carlos. E se os nomes do outro século parecem demasiado obscuros, com certeza ninguém desconhece Tito Gobbi, Italo Tajo ou Giuglio Neri

(Eu cá prefiro "a" Freitas.)





Não posso deixar de passar aqui uma tradução daquele que para mim é o trecho mais emblemático da ópera (a par do dueto, que está apenas "e os dois juram amizade e lealdade até à morte").


Dueto final do acto V.
Volumes desta série anteriormente publicados:
Rigoletto, 1, II