O Pássaro de Fogo (Stravinsky) @ Gulbenkian, 15 de Outubro 2010

A espectativa era elevada. Todos nós temos vindo a descobrir que Joana Carneiro tem sido posta a dirigir Tchaikovsky, Beethoven, e não sei quem mais; mas que o seu verdadeiro repertório é o moderno, incluindo o nosso Stravinsky, compositor do Pássaro de Fogo. E hoje dirigiu-o.

A primeira parte do espectáculo foi com música de Filipe Pires: uma espécie de fantasia moderna sobre Beethoven. Foi bom e permitiu dar sequência entre o repertório do espectáculo. O concerto para piano de Beethoven (no. 4) contou com Jean-Bernard Pommier que apesar de não me ter encantado particularmente, tocou muito bem e levou uma grande ovação. Até se aplaudiu no 1.º movimento!

Joana Carneiro
Depois do intervalo, veio o esperado Pássaro de Fogo -- o momento que se esperava e aspirava. Foi óptimo. Mas achei a parte final ainda mais óptima! Acho que começo a conseguir identificar algumas características comuns desta maestrina, como a sua passagem gradual e rápida de piano para forte.

Concerto em S. Carlos / 2010-11 / I

Fui com uma expectativa um bocado baixa em relação a este concerto. Primeiro, estava a imaginar a Julia Jones a lançar-se para o espaço com Brahms. Depois, mesmo sendo o António Rosado ao piano, nunca fiando...
Na primeira parte, tocou-se Mendelssohn seguido do concerto "Imperador" para piano de Beethoven. O pianista cujas interpretações de Chopin no S. Luiz há uns meses parecem ter chegado ao público portou-se bem outra vez.
A Julia teve uma prestação boa, como de costume, exceptuando o tal Brahms -- que também não manchou a noite. Aproveito para dizer que a 9.ª de Mahler tem muita cópia da 1.ª de Brahms.

Ovações da primeira parte.
Julia Jones cumprimenta a primeiro violino.

Martin André -- que esteve sempre a saltar entre os camarotes 32 e 34 --, logo na primeira entrada dos músicos, resolveu chamar as palmas, tendo fracassado por quatro vezes consecutivas em que soltou umas quantas palmas sozinho.
A sala estava mais ou menos como na D. Branca -- talvez até mais cheia.

"A Monsieur Massenet, Alfred Keil"

Como despedida da D. Branca de S. Carlos, deixo aqui esta imagem de que se tem falado por aqui e que esteve em falta nas vitrines no foyer.

Registado na Biblioteca Nacional sob o n.º 78.089.6 782(=1:469).
No texto: "Ao meu excelente amigo e confrade / Senhor Massenet / Homenagem da minha muito sincera e afectuosa admiração / "Serrana" / primeira ópera impressa em português / Alfred Keil / Lisboa - 1899".

Dona Branca (Alfredo Keil) @ Teatro Nacional de São Carlos, 3OUT2010

Da Obra
Como já seria de esperar, «Dona Branca» é uma uma ópera banal, tal como muitas outras do seu tempo. Keil tem sido muito referido como um seguidor de Massenet. Eu discordo. Acho que Massenet é um remate que significa "exploração sumptuosa dos limites" -- postas as suas influências básicas de Verdi e Mozart. Verdi, porque é um lírico do final do bel canto; e Mozart porque é quase óbvia a nuance que remete para esse compositor. Não sei se é por falta de génio, mas a harmonia profunda não existe -- pelo que quem assim queira interpretar pode tirar influência wagneriana. A orquestração não me parece nada de especial, visto que não evidencia nem temas dramáticos nem proporciona abordagens mais sensíveis. Bem à portuguesa, a melodia é épica (de carácter quase militar) e escasseia em sensibilidade e paixão, ao contrário do que se verifica nas suas canções que, com outros assuntos, poderiam ter sido de Chopin. Um Dinamarquês no YT descreveu-mas em tempos como "uma mistura de Chopin e Puccini".

O facto de 10 minutos antes da récita a sala estar ainda neste deserto populacional já acusava a reduzida afluência ao espectáculo.
 
Da Representação
A versão de concerto foi tradicional: no palco, com as estantes e os cantores à frente; o maestro no meio e a Orquestra Sinfónica Portuguesa atrás. Acho que já mais para a frentex era os cantores sentarem-se quando não estavam “em cena”.
Infelizmente, a récita foi praticamente homogénea. Talvez o maestro Stert tenha sido um ponto forte. A sua prestação pareceu-me bastante boa; não tão boa, no entanto, como poderia ter numa obra cuja análise é bem mais superficial do que a de um “dramalhão” a sério.
Dona Branca (Sundyte) não tem um timbre bonito. Tem uma voz muito expirada que aplica com uma técnica que parece optimizar o seu canto. No entanto, na sua ária do último acto, que eu me lembre especificamente, gritou um doloroso e estridente dó agudo.
Afan (Hudson) tem um belo timbre e não me parece que tenha algum problema intrínseco à projecção de voz, ao contrário do que se diz aqui. Simplesmente é um trapalhão que não tem lá grande técnica, empapando os sons à moda russa, produzindo um efeito quase cómico.
Adaour (Luís Rodrigues), como já sabemos, não tem um timbre particularmente bonito. No entanto, revela-se, mesmo em concerto, um bom actor inato, de técnica vocal irrepreensível, calhando bastante bem na récita. A dada altura, num sol4, escapou-lhe a voz. Até me caía a boca!
A Fada foi interpretada por Maria Luísa de Freitas. Tal como tenho escrito por aqui, esta meio-soprano revela que é mesmo uma rouca em decadência vocal e um desastre lírico. Devo salientar que até parecia estar dentro da coisa. Dançava languidamente com a música, e se houve alguém que sabia a partitura de cor -- era ela.
O coro não esteve tão mal como o tenho ouvido. Note-se que foi muito barulhento ao sentar-se e erguer-se.
Em suma, o espectáculo em si não foi nada de especial: a versão de concerto pedia encenação de grand opéra e os vocalistas não eram nada de especial -- pedindo mais encenação. Mas vendo as coisas de outra perspectiva (tal como no caso do Anel filmado de Bayreuth), era difícil e talvez não justificasse ter muito melhor.

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Johannes Stert + OSP Direcção musical
15/20
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Aushrine Stundyte Dona Branca
14/20
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John Hudson Aben Afan
13/20
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Luís Rodrigues Adaour
16/20
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Maria Luísa de Freitas Fada
9/20
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GLOBAL
14/20
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A casa esteve com lotação (assim de repente) de cerca de 50%. As ovações duraram pouco mais de 2 minutos por mim cronometrados. É de notar que houve uma violoncelista e uma violinista que vai não vai sacavam do leque e por ali ficavam a abanar-se.

No final, já com o barítono Luís Rodrigues instalado na frisa nº 3, houve a cerimónia de entrega do espólio de Mário Moreau ao TNSC. Já com a sala a menos de 30%, estiveram presentes o próprio Moreau, a viúva de Tomás Alcaide, o maestro Manuel Ivo Cruz, Jorge Salavisa (mal vestido como sempre) e Martin André -- entre outros.