Festival Cantabile: Última Noite @ São Carlos, 10 Set 2010

No programa de hoje, houve 5 lieder de Strauss, música moderna de Schnittke e um trio para violino, violoncelo e piano de Brahms. Não pude ir ontem à masterclass do Tom Krause.  :'-(

Laia Falcón cantou acompanhada ao piano por Ralf Gothóni. Teve um desempenho regulgar, mas esqueceu-se de sondar o espaço do Salão Nobre: notou-se que o "volume" do canto estava transportado para um grande espaço, sendo que cantou demasiado "alto". Demonstrou, no entanto, que tem uma voz bonita e compreende o espírito do canto de Strauss. Técnica impecável. Em suma, muito bem. Na minha escala, 16,5/20... se bem que a minha companhia afirme um 13...
A música atonal de Schnittke foi para piano e violino. Quem tocou violino foi Elina Vähälä, deliciando-nos com o seu Stradivari de 1678 (!!). Maravilhoso.
De Brahms, ouviu-se um trio muito bem interpretado, sendo que no final do último movimento, o tradicional "bravo!" a quebrar o silêncio foi substituído por um vigoroso "Boa!!".

Um bom espectáculo sem qualquer sequência na escolha do repertório.

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Elina Vähälä também tocou no outro dia obras de Mozart na Gulbenkian.

JÁ ESTÁ DEFINIDA A NOVA TEMPORADA DO S. CARLOS

(Breaking news!!)
 Tal como foi anunciado há momentos, as assinaturas estarão à venda a partir de 15 de Setembro para antigos assinantes e 24 de Setembro para novos assinantes. Bilhetes avulso a partir de 4 de Outubro.

Estas informações foram por mim obtidas directamente do pessoal do S. Carlos:
A temporada será anunciada ao público em geral no Salão Nobre no dia 15 de Setembro (4.ª-fª) pelas 11h a.m., com a presença de S. Exa. a Ministra da Cultura -- Gabriela Canavilhas.
Portanto, ao comprar assinatura não se estará a lançar à sorte.


(Infelizmente, o Plácido Zacarias não poderá estar presente, pelo que pede a quem possa que transmita informações acerca do decorrer da festa e, se interessado, redija texto para aqui se mostrar à "blogosfera operática".)

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Mais uma vez, chamo a atenção para o terceiro comentário (anónimo). Alguém sabe quem é o autor?

Rigoletto a Mantova @ RTP2, 4-5 Set. 2010


Eis a minha opinião:

O Plácido, ao contrário do que fez com o Boccanegra, em vez de se adaptar ao papel de barítono, transforma o mesmo em papel de tenor placidiano. A tal questão de ser ou não expressivo parece-me mais uma questão de apurar o personagem do que não ter expressividade. Afinal, o que é que ele deve exprimir exactamente em cenas como a do Sparafucile?

O Grigolo não foi Duque: foi antes o Rei - dos perdigotos. Nunca vi nenhum cantor a cuspir tanto como ele desde o Pavarotti. O seu físico acenta bem no Duque, se bem que eu imagine o Duque mais gordito com barriga de cerveja a assentar na La donna è mobile. Acho que a voz é muito 'leggera' para o papel. Ele que se ponha a pau, ou transformar-se-á num 'démodé' 'lirico-spinto'.

Já não me lembro do nome da Gilda, mais foi excelente em tudo: actuação, canto. Tem também uma figura elegante que assenta bem na beleza ideal da Gilda.

O Sparafucile do Raimondi não me convenceu. Para começar, o físico não se adequa, porque o irmão de uma jovem dificilmente é um velho. A voz apresenta acentuados sintomas de idade, tendo-me sugerido pouca ferocidade, mas muito canto feio.

Os espaços foram muito bem escolhidos. Ponho-me até a questão de se o Plácido passou do 1.º para o 2.º quadro em directo... Aquela janela aberta do II acto foi pena, porque o pingo que o Plácido soltou do nariz para a cabeça da Gilda já estava a ser há muito acompanhado por mim. Mas acho estranho que um assassino viva num castelo. Um sítio muito mais simples poder-se-ia ter arranjado, contando também que houvesse rio à vista. A operação de câmara não foi má, mas poderia ter dissimulado os olhos do Raimondi quando ele olhava para fora, ou ter mostrado menos tempo o panorama do céu-da-boca da Gilda.

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Balanços
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Plácidão
17/20
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Grigolo
16/20
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Gilda
18/20
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Raimondi
14/20
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Mehta + Orquestra Rai
17/20
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Selecção espacial
18/20
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Figurinos
19/20
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Câmara
16/20
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Colecção "Ópera": no 1: "Rigoletto - Verdi, 2ª Ed." (1947) - II

Por ocasião da transmissão do grandioso «Rigoletto» com o Plácido à frente...

(Para obter melhor resolução, carregue nas imagens.)



É triste observar que um cantor aqui referido como um dos principais intérpretes do Rigoletto, Joseph Kaschmann, cuja fotografia aparece ao lado da do próprio Verdi, caiu em esquecimento tal que nem uma referência ao seu nome o Google encontra... Esta é para a "Memória da Ópera".


Na sequência da imagem anterior, um texto esclarecedor acerca do conhecido encontro de Rigoletto com a censura... E algumas informações interessantíssimas acerca da decorrência da première desta obra eterna.



Algumas informações acerca desta ópera em Portugal... e mais recordações de grandes cantores há muito desaparecidos, dos quais destaco Adelina Patti, De Lucia, Caruso, Tito Schippa, Miguel Fleta, Titta Ruffo, Carlo Tagliabue, Gino Becchi.



Ponho aqui esta imagem para indicar que muitas vezes se esquece que Sparafulice era um assassino pago e que dificilmente poderia ter uma grande casa -- que desta vez, com o Plácido, até era um castelo. Não me parece por acaso que o Duque lhe diga que vá "dormir no inferno, ao relento ou onde lhe apetecer"; mas porque num casebre destes o espaço é pouco.


Parece-me estar a ver a Patti... mas 60% de hipóteses de estar errado. Algumas ideias?


Quase de certeza que vejo O Magnífico Eterno Duque Caruso à esquerda.


....E algumas informações que eu desconhecia acerca do dueto final, acrescentadas a mais um injusto enaltecimento de Verdi. Pois bem, Puccini e Wagner imitaram Verdi? Eu não me atrevo a andar a pesquisar numa partitura de 1000 páginas por acto de Wagner, mas posso adiantar que antes de Verdi escrever o quarteto "Bella figlia dell'amore" (RébM ou Sibm), já Donizetti escrevera "Chi mi frena in tal momento" (SolbM ou Mibm). E de um para o outro, acrescentando-se um bemol à escala, até parece cópia. Já o Caruso sempre os agrupara em gravações. E vêm-me dizer que o meu querido Puccini imitou? O autor ganhe juízo, porque antes de estrear La Bohème em 1896, Puccini já tinha a linda canção "Sole e amore" em '88 sobre um assunto totalmente diferente e antes de ter ouvido falar em Illica, Giacosa ou Murger.

Depois de feitas as digitalizações, lembrei-me que seria boa ideia copiar para aqui a tradução de "La donna è mobile":
«A mulher é como a pena ao sabor do vento: muda constantemente de tenção e de pensar. Seu rosto gentil é agradavel mente sempre, quando ri, quer quando chora. Será sempre infeliz quem nela se fiar e lhe confiar desprevenidamente o coração, mas também não pode ser completamente feliz sem se saborear o amor naquele seio.»

ANEXO: Recordando os antigos...

1. Titta Ruffo: Rigoletto


2. Fernando de Lucia: Duque de Mântua (A soberba Donna è mobile ainda não chegou ao YT)


3. Luiza Tetrazzini: Gilda